segunda-feira, 2 de novembro de 2009

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A TEOLOGIA DE LUTERO - PARTE 2


PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA TEOLOGIA DE LUTERO

a) Hermeneutica – A teologia de Lutero é a teologia da palavra. “E assim, á fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo”(Rm 10.17). Estas palavras paulinas tiveram significado fundamental para a Reforma Protestante. A Palavra divina, que cria a fé, destaca-se ao mesmo tempo o fundamento da teologia. A autoridade da escritura certamente fora enfatizada antes disso – e notadamente na tradição ocamista – mas quando Lutero se referia à Escritura como a Palavra divina, trazida ao homem através dos apóstolos e profetas, falava com nova convicção referente à posição fundamental e inalienável da palavra. O que havia de novo na atitude de Lutero face à Escritura era especialmente sua percepção mais profunda com respeito ao seu conteúdo. Além disso, Lutero reconhecia que a autoridade da Palavra era válida mesmo quando a tradição divergia dela; que sua autoridade mantinha cativa a consciência. Por último, os princípios de interpretação também foram completamente transformados na exposição bíblica de Lutero.

Cristo é o centro da Bíblia. “A Escritura deve ser entendida a favor de Cristo, não contra ele; sim, se não se refere a ele não é verdadeira Escritura.” “Tire-se Cristo da Bíblia e que mais se encontrará nela?” Para se compreender a Palavra o essencial é aceitar as promessas do evangelho pela fé. Faltando esta fé, a Palavra divina não pode ser entendida corretamente. Com isso, Lutero afastou-se da interpretação legalista da Bíblia, que encontra na Escritura uma coleção de diferentes doutrinas e ordenanças, e do conceito “entusiasta”, intimamente relacionado com a outra, e cujos adeptos reivindicam possuir a “Palavra interna” como norma da interpretação da Bíblia. Por entender claramente o fato que a mensagem do evangelho é a faceta central do conteúdo da Escritura, Lutero possuía certa liberdade com respeito à análise dos pormenores da Bílbia, liberdade que não significa nada além do fato que o conteúdo central (o contexto total) da Bíblia é o fator determinante na interpretação dos pormenores. Isto de maneira alguma significa desafio à autoridade canônica da Escritura. A posição de Lutero foi algumas vezes interpretada para significar exatamente isto, mas tais conclusões são incorretas. Entender o sentido mais profundo pressupõe especificamente o que mencionamos – a obediência da fé á Palavra externa. A fé em si, portanto, baseia-se na validez incondicional da Palavra. Sua autoridade também se justifica por isto, que nós homens, por causa de nossa fraqueza, devemos estar ligados à Escritura como norma externa, obrigatória. “Para que a igreja não seja destruída, é necessário que mantenhamos firmemente os diferentes escritos e ordens dos apóstolos.” De acordo com outras afirmações de Lutero, os apóstolos são nossos mestre infalíveis em virtude de incumbência divina especial.

Em nossa relação com a Bíblia, portanto, tanto liberdade como sujeição permanecem de pé. Do ponto de vista da fé como tal, estamos livres com respeito a pormenores literais. A fé tem importância primordial na interpretação da Bílbia; isto significa que a Escritura deve ser entendida no espírito de Cristo e não legalisticamente. Mas do ponto de vista das condições sob as quais a fé chega a existir, estamos subordinados à Escritura como autoridade externa.

Muitas vezes se tem assinalado a assim chamada crítica de Lutero ao cânone (certas afirmações sobre a Epístola de Tiago, entre outras) como exemplo de sua liberdade face à autoridade da Escritura. Mas isto conduz a equívocos. Realmente Lutero não considerava o cânone do Novo Testamento como fixado de modo absoluto. Em sua opinião, quatro dos últimos livros do Novo Testamento ( Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse) eram apócrifos, ou escritos cuja autenticidade apostólica eram, acima de tudo, decisivos na determinação da canonicidade. Assim, por exemplo, o que a Epístola de Tiago diz sobre fé e obras é interpretado como indicação que a epístola não é nem apostólica e nem canônica. (Na tradição protestante, foi só na época de Gerhard que também os assim chamados antilegômena entre os escritos neotestamentários começaram a ser reconhecidos como verdadeiramente canônicos.)

Apesar de certas semelhanças, há grande contraste entre a interpretação da Bíblia feita por Lutero e a moderna interpretação histórica, mas este contraste tem sido frequentemente ignorado. É verdade, sem dúvida, que Lutero atribuiu a maior importância ao que ele denominou o sentido literal ou histórico da escritura. Mas com isso ele não entendia a interpretação histórica no moderno sentido do termo; foi antes uma percepção derivada do contexto da fé. Lutero acreditava, por exemplo, que o Antigo Testamento é testemunha direta de Cristo, e não simplesmente que contém algumas prefecias a respeito dele. A concepção da “História das religiões” sobre a interpretação da Bíblia era desconhecida naquela época.

A idéia que Lutero fazia do Antigo Testamento correspondia aos pensamentos que desenvolveu com respeito à relação entre lei e evangelho. A lei mosaica, no sentido jurídico, foi abolida por Cristo. Fora para os judeus o que as leis saxônicas eram para os alemães e, portanto, válida apenas para certo povo num tempo determinado. A lei, contudo, recebeu cumprimento mais elevado que a obediência externa aos mandamentos. Aponta ao evangelho e atinge seu cumprimento apenas através da proclamação da justiça pela fé em Cristo. A lei, portanto, é preservada, e como mandamentos de Deus, aos quais todos os homens estão sujeitos, é válida mesmo na era do Novo Testamento. Ao mesmo tempo, porém, podemos também ver o evangelho no Antigo Testamento. Cristo também está nele, não apenas como o futuro Messias, predito na lei e nos profetas, mas também como aquele que fala diretamente nos Salmos e através dos profetas.

A interpretação bíblica tradicional da Idade Média mantinha que a Escritura tem sentido quádruplo. Podia ser exposta literalmente, tropologicamente (isto é, com respeito ao cristão individual), anagogicamente (isto é, com respeito à eternidade) e também alegoricamente, o que significava que se podia, por exemplo, fazer a Palavra se pronunciar sobre realidade gerais no mundo da fé ou da igreja.

Lutero rejeitou tal estrutura. Em sua opinião, a escritura tem apenas um sentido próprio, o gramatical ou histórico. Naturalmente, também reconhecia a interpretação figurativa que se encontra na própria Bíblia, como por exemplo nos paralelos estabelecidos entre Cristo e certos personagens do Antigo Testamento (tipologia). Lutero também falou (especialmente em seus primeiros sermões) de um sensus spiritualis ou mysticus, que aponta diretamente à alegoria. Mas este ponto de vista recebeu posição subordinada. Não era fidedigno, e aparecia nos sermões de Lutero apenas como adorno tradicional da exposição da Escritura. Em anos posteriores, Lutero abandonou mais e mais essa espécie de interpretação da Bíblia.

No conceito de Escritura de Lutero há a idéia que a Bíblia pode ser entendida por si mesma, agindo cada pessoa como seu próprio intérprete. As interpretações da tradição ou do clero não são necessárias para a correta compreensão da Bíblia (como os tólogos católicos romanos diziam). A Palavra possui em si a “clareza externa” que ela transmite e administra através do ministério (in ministerio verbi). É por esta razão também que a Escritura - sem o acréscimo de mandamentos humanos e opiniões doutrinárias – é o único fundamento da fé.

A “clareza externa” da Palavra deve se distinguida da assim chamada “clareza interna”, que é o cerne da compreensão do conteúdo da Escritura. Esta chega a existir apenas por meio do Espírito Santo, que ilumina e instrui o homem internamente. Lutero também ressaltava o significado da experiência para a correta compreensão da palavra de Deus. A educação na fé, juntamente com a experiência que é dada quando se aplica a fé quando se passa por tribulações de vários tipos, é necessária para uma genuína percepção da palavra (a escola do Espírito Santo).

É característica da teologia da Reforma que a Palavra seja colocada no centro das coisas, não apenas como fonte de percepção da realidade sobrenatural, mas também como Palavra eficaz, criadora e vivificante, pela qual Deus julga e soergue. A fé se relaciona com a própria palavra, não simplesmente como uma realidade metafísica existente por detrás da palavra, e nela encontra a salvação. Nisto podemos ver um contraste fundamental entre a teologia da Reforma e a teologia escolástica.

sábado, 17 de outubro de 2009

A TEOLOGIA DE LUTERO - PARTE I

BASES DA FORMAÇÃO TEOLÓGICA DE LUTERO.

Lutero foi sem dúvida o principal nome da Reforma (1483-1546). Lutero iniciou seus estudos em Erfurt, em 1501. O acontecimento na vida de Lutero que muito influênciou sua teologia, foi a sua entrada ao mosteiro dos eremitas agostinianos em Erfurt a 17 de julho de 1505, a qual se deu logo após a conclusão do estudo artístico com licentiatura de magister (mestrado). Inicialmente Lutero vai sofrer a influência do occamismo. Os “occamistas” de Efurt eram discípulos do último grande occamista Gabriel biel em Tibingen, o qual naturalmente tinha sua teologia de cunho próprio, e se encontravam em todos os casos com isso indiretamente dentro da tradição occamista. E o próprio Occam, um franciscano procedente da Inglaterra na primeira metade do século XVI, se situa com toda a sua orientação novamente na tradição de toda a escola dos franciscanos. Para esses, em todos os casos desde Duns Scotus, Deus não é como para Tomás de Aquino e toda a sua escola o ser supremo e inimaginável, mas sim a vontade onipotente. Sua onipotência, liberdade e majestade absoluta é que perfazem o caráter divino de Deus, e toda a teologia dos franciscanos é teologia da soberania de Deus. Já a sua doutrina do conhecimento é determina a partir daí. Deus não se torna cognoscível através da razão, com a qual procuramos compreendê-lo, mas pela revelação, na qual ele se nos dá livremente a conhecer. Salvação e bem-aventurança são concedidas àqueles que Deus elegeu para isso através de uma aceitação, uma acceptatio de Deus. No entanto os franciscanos não vêem apenas em Deus a liberdade perfeita. Também o homem é um ente livre. Ele tem todas as possibilidades de fazer o bem e de se fazer digno da aceitação. A doutrina da salvação dos franciscanos, especialmente a occamista, também conta com a liberdade humana e resulta num dramático conflito entre liberdade de Deus e a liberdade do homem. Não é bem claro de que maneira reage interiormente a pessoa que se deixa atingir pessoalmente pelas sentenças teológicas occamistas. Occamismo também foi muitas vezes sentido como um caminho bastante seguro para ser aceito. Provavelmente Lutero quis trilhar esse caminho seguro, afligido pelo seu estado presente, mas colocando suas esperanças nas boas obras, através das quais ele haveria de se tornar perfeito e digno da aceitação por parte de Deus. Em todos os casos, a teologia occamista, na medida em que ela já influência o estudante de Filosofia Lutero, deve ter sido por ele interpretada de modo incomum para a esfera pessoal; e com isso já nos encontramos novamente no campo da personalidade, - Por menos que possamos jamais enxergar os detalhes, Lutero deve tido uma luta religiosa interior.

É evidente que como um sacerdote, Lutero iria receber uma formação teológica de acordo com os princípios da sua ordem. Sobretudo a obra de Gabriel Biel sobre o cânone da missa, ou seja as orações que antecedem o sacrifício, Lutero que estudar a fundo. Mas um estudo teológico propriamente dito não era uma condição para a ordenação ao sacerdócio, e podia se seguir a essa. Assim se deu com Lutero. Estudar teologia significava aprofundar-se num determinado número de obras teológicas. Nós sabemos com bastante precisão quais foram as obras que Lutero estudou e podemos supor que ele realmente as assimilou em grande parte. Lutero era dono de uma brilhante memória; e para uma época, em que o número dos livros a serem lidos era bastante menor que hoje, podemos contar de um modo geral com um grau de assimilação literal que hoje não mais conhecemos. Com certeza Lutero estudou profundamente as seguintes obras teológicas: As sentenças de Pedro Lombardo, e como comentários das mesmas o assim chamado Colletaneum de Gabriel Biel e as Quaestiones de Guilherme de Occam e as de um teólogo da época do Concílio de Constança, Pierre d’Ailli, e, para a interpretação da escrita, a Glossa Ordinária (atribuída a Walahfrid Strabo, do nono século). Como a pesquisa católica fez questão de salientar, estas são todas elas obras da escolástica posterior, nominalista, exceto naturalmente o comentário bíblico mencionado por último e as Sentenças do bispo parisiense Pedro, chamado o Lombardo, as quais foram escritas já no século XII, antes do surgimento dos grandes sistemas escolásticos. Mas ao que tudo indica, as Sentenças, usadas em toda parte, já havia séculos, como livro de doutrina dogmática, se tornaram conhecidas e familiares a Lutero dentro da interpretação nominalista. Mesmo assim dificilmente se poderá sustentar a tese católica de que Lutero não teria conhecido de maneira alguma o catolicismo clássico da Alta Escolástica, mas sim uma distorção que dificilmente ainda era católica, ou seja o nominalismo. Por um lado, até hoje o nominalismo ainda não foi condenado por mais prioridade que se dê a Tomás de Aquino; por outro mesmo não havendo certeza se Lutero então já pode estudar a “Summa Theologiae” de Tomás de Aquino, ele ao menos chegou a conhecer a Tomás, Duns e Alexandre de Hales, e hoje está se evidenciando que o personagem mais recente do nominalismo, representado por Gabriel Biel em Tubigen (1495). Talvez já teria assumido novamente uma coloração tomista. O conhecimento da escolástica por parte de Lutero não foi nem permaneceu unilateral. Ao estudo de livros se acrescentava a obrigação de ouvir preleções na universidade e no estudo geral da ordem do mosteiro. Nas preleções eram novamente lidos livros, intercalando-se ocasionalmente explicações. Havia ainda uma tarefa que se atribuía ou podia ser atribuída ao estudante de teologia. Se ele tinha concluído bem o seu estudo artístico, ele era graduado, ou seja, ele se tornava bacharel e depois Magister artium. Com isso, porém, ele tinha o direito de ensinar nos estudos artísticos. Numa faculdade ele ensinava, noutra ele estudava. Desse direito Lutero fez uso durante seus anos no convento. Sim, até aconteceu que a ordem simplesmente o transferiu para Wittenberg. Ali havia uma universidade recentemente fundada, na qual a ordem tinha que preencher várias cadeiras. Em 1508 o jovem Lutero teve que assumir uma cadeira de filosofia moral na idade de 25 anos, se bem que por um tempo relativamente curto. Alí ele teve que dar preleções sobre a Ética Nicomaquiana de Aristóteles.

A INFLUÊNCIA DE AGOSTINHO NA TEOLOGIA DE LUTERO

Lutero apoiou-se muito em Agostinho. Em seus primeiros anos, como regra geral, identificava sua posição com a de Agostinho. Foi o ensinamento agostiniano de pecado e graça que Lutero deseja manter em oposição à doutrina da escolástica sobre justificação. Isso também foi decisivo no que tange à relação entre Lutero e o ocamismo.

A doutrina da predestinação impregnava fortemente os temores de Lutero no convento. Lutero sabia haver pessoas que, em virtude de imperscrutável decisão de Deus, estavam pre-determinadas para a bem-aventurança, e outras para a condenação. Lutero sentiu de modo angustiante, temporariamente até medo arrasador, que ele poderia estar entre os condenados. O medo de Lutero era medo da predestinação. Aquilo que ele observava e sentia em si mesmo ele acreditava ser um sinal de que ele estaria condenado. “Horrível medo me assaltou, ao desespero me levou, lançando-me ao inferno” – essas palavras de seu hino composto muito mais tarde (possivelmente me 1523; “Cristãos, vós todos jubilai”) se referem a sua terrível experiência da época do convento. É impossível dar uma explicação resumida e conclusiva que esclarecesse tudo nessa catástrofe interior de Lutero. É de Agostinho que a igreja recebeu a doutrina da predestinação efetuada por aquele Deus que através de soberana decisão divino concede a uns a graça irresistível, destinando-os à bem aventurança, enquanto que deixa os outros a sós, à mercê da perdição. O medo da predestinação de saída faz pensar em influência de Agostinho. – Apesar dessas explicações que de modo algum explicam tudo, mas apenas conseguem esclarecer certos contextos, é difícil chegar a resultados claros, uma vez que não se consegue localizar a época em que Lutero começou a ter esses temores, tampouco quando ele começou a se profundar em Agostinho. Observações da mão de Lutero à margem de textos de Agostinho nós possuímos do ano 1509. Mas isso não ajuda muito. Nós precisamos nos contentar com a constatação de que o Occamismo e Agostinho também desempenharam um papel muito importante não só na formação do monge Lutero, como na formação do Lutero teólogo.

Como é sabido Agostinho foi fortemente fecundado pelo neo platonismo, e sua teologia é um dos portões de entrada do pensamento neoplatônico no pensamento cristão. Esquemas de pensamento como mundo superior e inferior, eterno e terreno em Lutero provêm de Agostinho ou mesmo do neo-platonismo. Seja qual for a validade da tese do elemento neoplatônico-agostiniano na primeira preleção sobre os Salmos, em todos os casos é necessário perguntar se a teologia de Agostinho prestou serviços de obstreta em seu renascimento. Esse certamente foi o caso. Como occamista, Lutero cresceu numa concepção do mundo que deduz tudo da vontade e juízo de deus, tanto o pecado do homem como também a graça que lhe é concedida. Pecado significa em primeiro lugar que Deus está irado com uma pessoa, e graça, que deus lhe proporciona sua bondade misericordiosa ou que aceita suas boas obras. Bom e mau não são qualidades do homem, mas conceitos que Deus dá sobre a pessoa. Aquilo que a pessoa é, ele é pelo juízo de que Deus dela faz. Para a conceituação sobre o homem pecador isso podia tornar-se perigoso. O homem que é repudiado perante Deus talvez pode, desconsiderando-se uma vez esse julgamento de Deus, ser moralmente muito valioso e bem sucedido, só que ele não pode alcançar totalmente benevolência desse Deus enigmático. Também é nisso que resulta a doutrina occamista sobre o homem: O homem faz aquilo que está dentro de si. Desenvolve todas as suas boas potencialidades; aproveite a graça – e então Deus também haverá de modificar seu conceito e lhe concederá sua benevolência. Em contraposição à concepção occamista do homem pecado, Lutero desenvolveu uma antropologia própria e bem diferente. Ele tem uma concepção bem inoccamista do pecado. Pecado não é apenas um conceito atribuído por Deus, mas uma corrupção muito profunda, um dano terrível. Esse fato do ser o pecado algo tão terrível, um acorrentamento ao egoísmo, Lutero experimentou no convento. Mas ele podia ter aprendido de Agostinho .

ASPECTOS GERAIS DA TEOLOGIA DE LUTERO

De que maneira devemos compreender Lutero como teólogo? O corpus luterano contém muitos gêneros diferentes de escritos: comentários, catecismos, tratatados polêmicos, controvérsias, hinos, sermões, cartas pessoais, a Conversa de Mesa, etc. Em nenhum deles, entretanto, há algo que remotamente se assemelhe a uma teologia sistemática. Mesmo a Confissão de Augsburgo, pela qual Lutero foi apenas parcialmente responsável, fornece afirmações teológicas específicas, não um sistema doutrinário completo. Os escritos de Lutero são invariavelmente contextuais, ad hoc, dirigidos a situações particulares, com metas definidas em mente. Isso não significa que a teologia de Lutero era casual, nem que não havia temas gerais e padrões em seu pensamento. Entretanto, devemos deixar os temas emergirem das próprias preocupações primordialmente pastorais de Lutero, em vez de impor nossa estrutura sobre ele. Para fazer isso, será bastante útil examinar o enfoque teológico básico de Lutero. O qual podemos descrever sob o aspecto de três características constantes. A teologia de Lutero era ao mesmo tempo bíblica, existencial e dialética.

Lutero era um teólogo essencialmente bíblico. Isso pode significar simplesmente que ele era um professor de exegese, sobretudo do Antigo Testamento, na Universidade de Wittenberg. Em termos mais amplos, contudo, isso significa uma ruptura radical com o currículo padrão da teologia escolástica e uma reorientação da teologia ao texto bíblico.

Lutero instrui-se completamente na tradição nominalista da baixa Idade Média. Em certos tópicos, tais como a questão dos universais, Lutero continuou sendo um expoente da via moderna, mesmo após seu aparecimento como reformador. Entretanto, bem cedo em sua carreira, quando ainda um Sententarius, Lutero revelou um profundo ceticismo acerca do valor da atividade teológica: “A teologia é céu, sim, mesmo o reino dos céus; o homem, entretanto, é terra, e suas especulações são fumaça”. A percepção de Lutero com respeito ao abismo intransponível entre a teologia e as “especulações” humanas intensificou-se à medida que ele mergulhava mais profundamente nos textos bíblicos. A partir de 1515, ele se referiu aos nominalistas com “teólogos-porcos”. Em setembro de 1517, aproximadamente dois meses antes da explosão da controvérsia das indulgências, Lutero resumiu seu ataque contra a teologia escolástica num disparo contra Aristóteles:

É um erro dizer que homem não pode tornar-se teólogo sem Aristóteles. A verdade é que não pode tornar-se teólogo sem se livrar de Aristóteles. Em resumo, comparado com o estudo da teologia, o todo de Aristóteles é como a escuridão para a luz.

Lutero não tinha nada contra Aristóteles em si. O que ele rejeitava era todo o esforço da teologia escolástica de fazer da filosofia Aristótelica a pressuposição da doutrina cristã, de interpretar a revelação bíblica relativamente à “sofística” pagã,de reduzir os grandes temas das Escrituras – graça, fé, Justificação – à algaravia escolástica. No espírito de Tertuliano, Lutero perguntava o que Jerusalém tinha a ver com Atenas, a igreja com a academia, a fé com a razão.

Para lutero Lutero, no campo da verdadeira teologia, a razão funcionava apenas expost facto, ou seja, como princípio ordenador pelo qual a revelação bíblica era claramente apresentada. A razão iluminada, a razão incorporada ã fé, poderia assim “servir a fé ao pensar sobre alguma coisa”, porque a razão informada pelo Espírito Santo “extrai todos os seus pensamentos da Palavra”. Isso deve ser firmemente lembrado quando ouvimos a famosa declaração de Lutero em Worms: “A menos que seja condenado pelas Escrituras e pela razão simples, não posso e não irei me retratar”. A razão não era uma fonte independente de autoridade paralela às Escrituras – sua consciência ainda estava “cativa à Palavra de Deus”- mas meramente a inferência necessária das próprias Escrituras. Lutero não depreciava a racionalidade humana; ele até mesmo conferiu à razão redimida uma tarefa funcional no trabalho da teologia. O que ele realmente rejeitou como teólogo bíblico foi a arrogância da razão, que, na teologia escolástica, tirou a primazia da revelação.

Quando chamamos Lutero de teólogo existencialista, queremos dizer que, para ele, o interesse por Deus era uma questão de vida ou morte , envolvendo não apenas o intelecto de um homem, mas sua existência como um todo. Para Lutero a teologia era sempre intensamente pessoal, experiencial e relacional.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A FALTA QUE FAZEM OS PROFETAS - Pr. RICARDO GONDIM


A Falta que Fazem os Profetas
Confesso que não gostava de ler os profetas da Bíblia. Sempre os considerei rígidos demais, exageradamente metafóricos e confusos. Em meus primeiros anos como cristão, não sabia situá-los historicamente. Lê-los me entediava. A primeira vez que senti simpatia pelos profetas foi quando vi-me desafiado a enxergar o coração paterno de Deus nas páginas do Antigo Testamento e, assim, reli toda a Bíblia. Recordo-me da minha alegria quando percebi, pela primeira vez, que a saga bíblica resume-se em mostrar um pai em busca de seus filhos. Entendi a profundidade da interpretação que os antigos rabinos de Israel davam ao dilúvio. Afirmavam que depois de Jeová insistir cento e vinte anos com os seus filhos, viu a dureza de seus corações, chorou por quarenta dias e quarenta noites e suas lágrimas cobriram a terra. Aprendi sobre a paciência e longanimidade divina em tolerar momentos históricos perversos. Consegui, finalmente, estudar os profetas sem considerá-los grosseiros. Mas me apaixonei mesmo pelos escritos dos profetas quando li Abraham J. Heschel, rabino que se tornou notório por sua abordagem sobre o coração amoroso de Deus em meio a um judaísmo inclemente. Seu livro The Prophets é um libelo da literatura judaica. Heschel apresenta-nos os profetas, mostrando que eles não foram meros microfones que amplificavam e decodificavam o falar de Deus, mas gente inserida na cultura, com temperamento e individualidade. A tarefa do profeta não se resumia em transmitir o ponto de vista divino. Ele encarnava o coração de Deus. O profeta em Israel não vaticinava apenas. Ele era também poeta, pregador, patriota, crítico social. Sempre iniciava suas profecias com juízo, mas sempre as concluía com esperança e redenção. O profeta não repetia jargões, não perpetuava o que já fora dito, mas pensava fora dos paradigmas. Não era convencional. A mágica de suas palavras vinha de sua intuição, de seu inconformismo e da largura de seus anseios. Inúmeras vezes a linguagem do profeta foi hiperbólica. O exagero era uma maneira de mostrar sua angústia, seu desespero de não se acovardar diante do iminente fracasso nacional. Meu apetite pela leitura dos profetas fez nascer em mim o desejo de vê-los entre nós. Entendo que o ministério profético com autoridade canônica foi até João Batista (Mt11.13). Sei também que o dom carismático da profecia (1 Co 12) resume-se à função tríplice que Paulo nos deu em 1 Coríntios 14.3 — edificar, exortar e consolar. Entretanto, o ministério profético que desejo não é um título ou cargo, acho que é uma paixão. Sinto que a igreja evangélica brasileira tem bons evangelistas e excelentes estrategistas eclesiásticos, e que já demonstramos alguma maturidade teológica, mas ainda somos carentes de líderes com a verve profética. O movimento evangélico brasileiro necessita de homens como Martin Luther King Jr., um dos mais autênticos profetas do século XX. Sua vida, tantos anos depois de sua morte, continua impressionando pela coerência, bravura e profundo compromisso com os valores do reino de Deus. Li sua autobiografia e confesso que senti o meu coração desafiado por esse homem que viveu, falou e lutou como um profeta para os americanos, mas cuja vida inspira todas as nações. King Jr. nasceu em 15 de janeiro de 1929 em Atlanta, Geórgia, e foi ordenado pastor batista em 25 de janeiro de 1948. Quando assumiu a igreja que seu pai pastoreava, a Dexter Avenue Church, em Montgomery, Alabama, decidiu que jamais se curvaria às leis segregacionais do sul dos Estados Unidos. Nessa cidade, aconteceu o grande boicote às companhias de ônibus. Rosa Parks, uma costureira de 42 anos, recusou-se a ceder seu lugar em um ônibus a um homem mais jovem que ela e foi presa. Organizou-se um movimento na cidade e King Jr. foi eleito por unanimidade o seu presidente. Depois de várias vezes preso, de sofrer atentados com uma bomba que foi jogada na varanda de sua casa em 27 de janeiro de 1957, ele passou um mês na Índia, aprendendo os princípios da não-violência usados por Ghandi na resistência ao imperialismo britânico. Aplicou-os nos Estados Unidos e conseguiu vencer a tirania e o ódio com o amor. Em 28 de agosto de 1963, King Jr. subiu os degraus do Memorial de Lincoln para fazer o seu mais famoso discurso, I Have a Dream (Eu tenho um sonho). Sua voz ecoou por todo o mundo enquanto a paixão de um profeta se derramou por seu povo. Era o coração de Deus que pedia que os homens não fossem julgados pela cor de sua pele, mas pelos conteúdos do caráter. Sua vida impressionou tanto que, em 10 de dezembro de 1964, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Juntei alguns de seus pensamentos, os quais reproduzo aqui para que notemos a falta que os profetas fazem. Homens e mulheres vivendo em comunidade: "Quando o indivíduo não é mais um verdadeiro participante e não percebe sua responsabilidade para com sua sociedade, os conteúdos da democracia se esvaziam. Quando a cultura se degrada e a vulgaridade é entronizada; quando o sistema social não constrói segurança, mas induz o medo, inexoravelmente o indivíduo é impelido a se isolar completamente desta sociedade sem alma. Este é o processo que produz alienação — talvez a mais insidiosa característica da sociedade contemporânea." A grandeza dos ideais: "A medida de um homem não se afirma em tempos de conforto e conveniência, mas repousa nos seus posicionamentos em tempos de desafios e controvérsias." "A coragem encara o medo e, portanto, dele se assenhora. A covardia reprime o medo e, portanto, dele se torna escrava. Homens corajosos nunca perdem o elã pela vida mesmo que a situação que vivam seja sem brilho; covardemente, homens esmagados pelas incertezas da vida perdem o desejo de viver. Devemos constantemente erguer diques de coragem para deter as inundações do medo." O próximo: "A maioria daqueles que vivem na América rica ignora os que vivem na América pobre; ao fazerem isso, os ricos americanos terão de eventualmente enfrentar a pergunta que Eichmann preferiu ignorar: 'Qual a minha responsabilidade pelo bem-estar do meu próximo?' Ignorar o mal é tornar-se cúmplice dele." Deus e a religião: "A ciência investiga; a religião interpreta. A ciência fornece o conhecimento que dá poder; a religião fornece a sabedoria que dá controle. A ciência lida com os fatos, a religião lida primordialmente com os valores. As duas não são rivais. Elas se complementam. A ciência ajuda a religião a não cair no vale paralisante da irracionalidade e do obscurantismo. A religião previne a ciência de despencar no pântano do materialismo obsoleto e do niilismo moral." Em 4 de abril de 1968 uma bala assassina silenciou esse profeta de Deus. Contudo, sua vida continua inspirando milhões de homens e mulheres. Martin Luther King Jr. não pode ser esquecido pela geração evangélica deste novo milênio. Que ele nos inspire a desejar mais profetas na igreja. Precisamos de homens e mulheres que não nos deixem acostumados com a ordem natural das coisas. Precisamos de gente cuja voz troveje ira contra a iniqüidade e a injustiça, mas que nunca fale sem a ternura de Deus. Que o mote de King Jr. — I have a dream — ecoe entre as paredes das igrejas, para que nunca deixemos de sonhar em tempos de imediatismos. Jesus mandou que orássemos pedindo mais obreiros para a sua seara. Minha prece é que Ele envie mais profetas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

AS BASES DA TEOLOGIA CONTEMPORÃNEA


AS ORIGENS DA TEOLOGIA CONTEMPORÃNEA

As profundas transformações científicas e culturais ocorridas no século XVIII, transformaram completamente as condições, sob as quais, se pensava e se fazia teologia. As raízes do Iluminismo se encontram no humanismo, no socialismo e no deismo. Tudo isso com base na filosofia de descartes, Leibnitz e Loocke. As mudanças sociais, políticas, filosóficas e científicas, aconteceram de modo tão rápido que as velhas estruturas, perderam o controle, até mesmo a igreja. A visão metafísica da realidade, foi substituída por uma visão empírica e atomística. Com isso, o mundo espiritual, centrado em Deus, cede lugar a um mundo material, centrado, centrado nas leis da natureza. A filosofia deixa de ser serva da teologia, para assumir uma postura analítica e crítica da sociedade. A educação é liberada da influência da teologia escolástica, passando a basear-se em princípios racionais. A influência do Iluminismo sobre a teologia produz o conceito de religião natural, que considera Cristo um mestre, sábio entre os homens, no lugar de considera-lo a encarnação a encarnação de Deus, conforme a teologia dogmática. Em oposição ao Iluminismo, a igreja, tanto na confissão católica, quanto na confissão protestante, desenvolveu a cultura das confissões de fé. Com isso, a secularização desenvolveu uma cultura das confissões à parte e fora do controle da igreja. A teologia tornou-se dependente da filosofia e do pensamento racionalista. Paralela à racionalização da teologia, surge uma tendência de moralização do cristianismo fora dos cânones da religião organizada. Desse modo, a principal característica da teologia iluminista foi a tendência de humanizar o cristianismo, acomodando-o numa estrutura antropocêntrica.

O ILUMINISMO

foi um movimento filosófico racionalista , científico e político iniciado na segunda metadE do século XVII e que dominou a Europa durante todo o século XVIII. Fundamentava-se em bases racionais e otimistas assentadas pelos pensadores da revolução intelectual do século XVII. A filosofia do Iluminismo, tal como expressa nas obras e popularizadores, incluía entre seus princípios basilares as seguintes idéias e assertivas:

O lugar dos homens e mulheres no universo. Os homens e mulheres não eram mais tidos como a explicação para a existência do universo, tal como no ideário teológico do período medieval. Ao invés disso, eram considerados apenas como um dos elos numa cadeia de seres, ordenada racionalmente, que abrangia todos os seres vivos. Contudo, o fato de estarem submetidos a um ordenamento universal de modo algum os tornava impotentes ou destituídos de objetivo.

Atitudes com relação a Deus e à religião organizada. Um universo racionalmente ordenado, sujeito a leis invariáveis, excluía a existência de um Deus pessoal, que pudesse intervir, através de milagres, para contradizer essas leis. Se Deus realmente existia, como acreditava à maioria dos filósofos do Iluminismo, era simplesmente como uma causa primeira, a forma que criado as leis, que as pusera me movimento e que garantia se contínuo funcionamento. Os que se atinham a essa concepção chamavam a si próprios deístas. Atacavam os fundamentos bíblicos do cristianismo, submetendo a Bíblia a uma crítica erudita e depois sustentando que o relato bíblico não passava de mitologia. Aliaram-se a um grupo maior de críticos, denunciando as religiões institucionalizadas como instrumentos de exploração, imaginados por patifes e tratantes, a fim de poderem tirar proveito das massas ignorantes. Rejeitavam como inúteis as orações e sacramentos do cristianismo organizado; Deus, argumentavam, não pode ser persuadido a desprezar a lei natural em benefício desta ou daquela pessoa. Condenavam como perniciosa a doutrina do pecado original. Homens e mulheres dispõem de liberdade e de aptidão racional para escolher entre o bem e o mal; a idéia de que alguns estão predestinados à salvação e outros para a condenação nega à humanidade a dignidade com que sua razão a dotou.

Ênfase nos assuntos e preocupações deste mundo. A substituição de modelos divinos de comportamento por modelos terrenos era parte de um movimento mais amplo, característico do Iluminismo, que acentuava a importância de se compreender rigorosamente o mecanismo deste mundo, ao mesmo tempo em que se descartava, por incognoscível ou inconcebível, a existência de algum mundo celestial vindouro.

O RACIONALISMO

Durante o Iluminismo, acentua-se o impulso racionalista que assaltava a teologia protestante no período escolástico: agora não se contenta mais em provar a racionalidade da fé demonstrando que as verdades reveladas se harmonizam com os cânones da razão, mas também submete a Revelação ao tribunal da razão,dando a esta o dever de purifica-la de todos os elementos sobrenaturais.

A passagem do racionalismo escolástico ao racionalismo iluminista foi gradual. O primeiro momento da Revelação bíblica, valendo-se dos mesmos argumentos que a Ortodoxia invocava anteriormente. Esta afirmara que nenhum homem intelectualmente honesto poderia rejeitar a autoridade da Bíblia. Nenhum filósofo, fiel à filosofia e ao sadio exercício da razão, poderia colocar seriamente em dúvida as doutrinas fundamentais da fé cristã. Muitos expoentes do pensamento religioso protestante do século XVIII fazem suas essas teses da Ortodoxia e procuram novos argumentos para provar a veracidade do cristianismo. Para tanto, alguns recorrem à filosofia, outros a filologia e outros ainda à história.

Os maiores efeitos do emprego da filosofia no campo teológico manifestam-se bem claramente em Emmanuel Kant (1724-1804). Mostra que a filosofia especulativa não pode prestar qualquer auxílio à religião porque não pode demonstrar nem mesmo a existência de Deus. Esta só pode ser alcançada seguindo as exigências práticas da moral. Na obra A Religião dentro dos limites da Razão, elabora uma interpretação racionalista da Revelação cristã, na qual todos os elementos dogmáticos são reduzidos a simples símbolos. Assim, por exemplo, Jesus é o símbolo da luta da humanidade contra o mal e de sua vitória sobre este.

Contra Kant elevou-se o protesto solitário de Johann G. Hamann (1730-1788). Este contestou a utilização que o filósofo fizera da razão: não se pode presumir que ela se erija em juiz da Revelação. Deus não fala ao homem somente através da razão, mas também de uma totalidade de manifestações. Toda a realidade é revelação de Deus e a Escritura ocupa posição privilegiada em relação à natureza e à história, que são como seus comentários, já que constituem antecipações suas e não o oposto. Mas a Escritura só tem um caráter revelador para quem tem fé.


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

EM BUSCA DA FELICIDADE

Certo filósofo francês disse recentemente: "Todo o mundo está buscando loucamente a certeza e a felicidade." O presidente da Universidade de Harvard disse: "O mundo está procurando uma religião em que possa crer e uma canção que possa cantar." Um milionário de Texas confessou isto: "Pensei que com dinheiro pudesse comprar a felicidade, mas acabei miseravelmente decepcionado." Famosa estrela do cinema exclamou: "Tenho dinheiro beleza fascinação e popularidade. Deveria ser a mulher mais feliz deste mundo, mas sou infeliz e miserável. Por quê" Um dos mais conspícuos líderes britânicos disse: "Perdi toda a vontade de viver, e no entanto tenho que viver. Que é que acontece comigo?"
Certo senhor foi consultar um psiquiatra, e lhe disse: "Doutor, sinto-me vencido, sozinho, e muito infeliz. O senhor me poderá ajudar?" O médico especialista lhe receitou que fosse ao espetáculo de um famoso circo, e visse e ouvisse um palhaço extraordinário que tinha a fama de fazer rir os mais tristes e desanimados deste mundo. O consulente respondeu: "Eu sou o dito palhaço."
Certo acadêmico disse: "Tenho 23 anos. Já passei por experiências que fizeram de mim um velho e estou farto da vida." Famosa bailarina grega de nossos dias disse: "Nunca tenho estado só, mas sinto que minhas mãos tremem, que os olhos se me enchem de lágrimas e que se me confrange o coração em busca de uma paz e felicidade que jamais achei." Um dos grandes estadistas do mundo hodierno me disse certa vez: "Estou velho, e para mim a vida já perdeu todo o encanto e significado. Estou pronto a saltar fatalmente para o desconhecido. Jovem, o senhor me poderá dar um raio de esperança?"
Este nosso mundo materialista luta, e se agita, e se debate na eterna busca da fonte da felicidade! Quanto mais conhecimentos adquire, menos sabedoria parece ter. Quanto maior for a segurança econômica em que vivemos, descobrimos avolumar-se mais dentro de nós o enfado, e também o tédio. Quanto mais gozamos dos prazeres mundanos, nos sentimos menos satisfeitos e contentes com a vida. Somos como o mar inquieto, encontrando precária paz aqui e quase nenhum prazer ali; e nada nos parece permanente e satisfatório. E assim continua a nossa busca! Os homens matam, mentem, escamoteiam, roubam e lutam para satisfazer sua ânsia de poder, de prazeres de riquezas, pensando que dessa forma alcançarão para si e para a sociedade em que vive paz, segurança, contentamento e felicidade.
Não obstante, em nosso íntimo uma pequenina voz continua a nos dizer: "Não fomos criados para isso, mas para coisas melhores." Trazemos dentro de nós uma percepção misteriosa de que existe em algum lugar a fonte dessa felicidade que torna a vida digna de ser vivida. E avançamos dizendo a nós mesmos que em algum lugar e num certo dia toparemos com esse segredo. Às vezes nos parece que já o encontramos – mas se trata duma ilusão, e continuamos decepcionados, confusos, perplexos e infelizes.
A felicidade que possui valor permanente na vida não é superficial, e não depende de circunstâncias. É uma felicidade, um contentamento que enche a alma ainda mesmo no meio das circunstâncias as mais adversas e no meio de ambientes mais que nocivos e desanimadores. É essa felicidade que sorri quando tudo vai mal, e mesmo através das lágrimas, A felicidade pela qual nossa alma suspira é essa felicidade imperturbável ante o sucesso ou a derrota, que se radica profundamente em o nosso íntimo e nos faculta interior descanso, paz e contentamento, sejam quais forem os problemas que se agitem na superfície. Essa espécie de felicidade não precisa de estímulos de fora.
Perto de minha residência há uma fonte cujas águas nunca variam, seja qual for a estação do ano. Podem cair fortes chuvas por perto dela, que as suas águas não aumentam. Pode a região sofrer longa e dura estiagem, que suas águas não diminuem. É sempre e perenemente a mesma. Eis o tipo de felicidade que tanto desejamos e queremos.
A criatura humana, por natureza e instinto, julga-se insatisfeita pelo menos por um destes três motivos:
Primeiro, tendo sido criado à imagem de Deus, o homem é um peregrino solitário e perdido sobre a terra, uma vez alienado da comunhão com o Criador, a cuja semelhança foi feito. Ter-se uma vaga idéia de que Deus existe não é o bastante. O homem precisa ter a certeza de que não está sozinho no mundo, e de que uma inteligência e um poder mais adequados dirigem o seu destino.
Segundo, o homem, separado da verdade, mostra-se confuso e perplexo. Ele precisa da verdade como os animais dela não precisam – não tanto essa verdade das ciências físicas e matemáticas, mas da verdade a respeito do seu ser: de sua origem e finalidade, de seus conflitos e do seu futuro.
Terceiro, o homem precisa de paz. Não duma paz indefinível, dessa chamada paz mental, ou de espírito, mas dessa paz que o liberta de todos os perturbadores conflitos e frustrações da vida, dessa paz de alma que permeia todo o seu ser, paz que opera através das provações e sobrecargas da vida.
Nada menos de oito vezes nas Beatitudes – que alguém chamou de as "belas atitudes" – Jesus empregou a palavra bem-aventurado. Este vocábulo podia traduzir-se também por feliz, conquanto traga em seu bojo um significado bem mais rico do que esses que ele tem hoje no português. Eis porque o "bem-aventurado" se defende bem de qualquer redução ou perversão de sentido. As primeiras palavras de Jesus são: "Felizes sois vós." E a seguir Jesus nos dá a fórmula da felicidade.. Certamente se alguém neste mundo já possuiu genuína felicidade e bem-aventurança, essa pessoa foi Jesus. Ele conheceu o segredo dela, e nestas Beatitudes Jesus no-lo revela.
As Beatitudes não são o ensino global de Jesus, e nem mesmo o é o Sermão do Monte. Em nossa geração, pessoas sinceras e honestas têm cometido o grave erro de pensar que a tarefa principal de Jesus era de natureza social, que Ele veio como um reformador da sociedade e como um exemplo da vida ideal. Ele foi, e é, muito mais, infinitamente mais. Ele é o Salvador, o que morreu pelos pecadores, levando suas transgressões à cruz em que por eles foi imolado. Ele morreu para salvar os homens que haviam violado o divino ideal e que, por isso, não podiam atingi-lo mais em sua natureza de degenerados.
A erudição moderna, precisa e mais adiantada, descobriu novamente, e de uma vez por todas, que o Sermão do Monte, bem como as Beatitudes, não podem ser isolados ou separados do fato da salvação alcançada por Jesus. O Velho Testamento ensinara que o Cristo seria manso, e que transformaria o pranto em alegria; que a retidão ou justiça seria Sua comida e bebida, e que mesmo na cruz se manifestaria Sua maior fome e sede.
Esta é outra maneira de se dizer que, na realidade, Jesus Cristo é o homem perfeito das Beatitudes. Somente Ele, na história da raça humana, experimentou cabal e completamente aquilo que ide nos diz acerca da felicidade e bem-aventurança da vida. O que Ele nos diz, diz-nos como o Salvador que nos remiu e como Aquele que convida os que sinceramente professam ser Seus discípulos a segui-Lo em Seus passos.
A mensagem de Cristo quando Ele esteve na terra foi revolucionária e compreensível. Suas palavras eram simples, conquanto profundas. E, por isso, chocaram e abalaram os homens. As palavras dEle, tanto provocavam calorosa aceitação como violenta repulsa. Os homens, depois de ouvir a Jesus, nunca poderão ser mais aquilo que eram, pois que invariavelmente se tornam melhores ou piores. Seus ouvintes O seguiam com amor e dedicação, ou dEle se afastavam com indignação e ódio. No Evangelho de Jesus há certo poder mágico que leva homens e mulheres a uma ação decisiva. Jesus tinha uma atitude de "Quem não é comigo é contra mim."
Os homens que O seguiram fizeram-se únicos em sua geração. Viraram o mundo de pernas para o ar, porque seus corações se tinham despertado e virado para o avesso. E, com as palavras de Cristo, o mundo já não podia continuar a ser o mesmo. Assim, a história da humanidade deu um grande passo para melhor. Os homens começaram a se portar como seres humanos. Na esteira do cristianismo veio a dignidade, e a nobreza, e a honra. A arte, a música e a ciência, tocadas pela fagulha dessa nova interpretação do significado da vida, passaram a progredir e a se desenvolver. Os homens começaram de novo a espelhar em si "a imagem de Deus" em que haviam sido criados. A sociedade começou a sentir o impacto da influência cristã. A injustiça, a desumanidade e a intolerância viram-se desalojadas pela forte correnteza do poder espiritual desencadeado por Jesus.
Séculos já se foram desde que surgiu na terra esse movimento de força espiritual. E essa correnteza de cristianismo tem avançado sem cessar, algumas vezes em maré enchente e as mais das vezes em maré vazante. Os tributários construídos por homens têm desaguado nela, poluindo-a e adulterando-a. O deísmo, o panteísmo, e ultimamente o humanismo e o presunçoso naturalismo, ou materialismo, têm desaguado seus sujos e barrentos afluentes na correnteza mestra do pensamento cristão, de modo que difícil se torna às vezes distinguir o verdadeiro daquilo que é falso.
Entendemos que os cristãos devem ser gente muito feliz! A presente geração é bastante versada na terminologia cristã, mas é também assaz remissa na prática positiva dos princípios e ensinos de Cristo. Por isso, hoje precisamos mais de verdadeiros e leais cristãos do que propriamente de mais cristãos.
O mundo pode fazer objeção ao cristianismo como uma instituição, mas não há argumento que prevaleça diante duma pessoa que pelo Espírito de Deus se tenha tornado semelhante a Cristo. Tal pessoa é viva condenação do egoísmo, do racionalismo e do materialismo de nossos dias. Muitas e muitas vezes temos discutido com o mundo a letra da lei quando devíamos viver mais como vivos oráculos de Deus, vistos e lidos por todos os homens.
Já é tempo de voltar novamente às fontes e perceber e sentir outra vez as qualidades curativas desse rio da salvação.
Jesus disse à samaritana junto ao poço de Jacó: "Quem beber da água que eu lhe der jamais terá sede." Aquela mulher desiludida e corrompida pelo pecado, simboliza perfeitamente toda a raça humana. As aspirações dela são também as nossas! O clamor do coração dela é também o nosso! As desilusões dela são também as nossas desilusões! O pecado dela é também o nosso pecado! E o Salvador dela pode ser também o nosso Salvador! O perdão e a alegria que ela obteve, nós também os podemos obter?
Convido-o, meu prezado leitor, a realizar, comigo uma empolgante jornada, uma pesquisa bastante aventurosa! Qual o nosso objetivo? O segredo da felicidade. O lugar? A Galiléia. Voltemos para trás as páginas do tempo, para dois mil anos.
O dia está quente e abafado, e sufocante vento faz rodopiar o pó em caprichosas espirais que são levadas pouco a pouco para os lados do Mar da Galiléia. Há um quê de expectativa na atmosfera que respiramos. O vento saltita feliz pela superfície do velho mar. Ouvimos vozes em tom excitado e febril, como de gente a saudar efusivamente um amigo. De várias estradas, pequenos grupos de gente começam a se reunir. Corria a notícia de que Jesus estava de volta à Galiléia.
De repente Ele com o Seu pequeno grupo de seguidores surge no alto dum monte da estrada de Cafarnaum, e imediatamente vemos atrás deles uma grande multidão de gente vinda de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia e de além do Jordão.
Rápida corre de boca em boca a boa nova; "Jesus vem vindo!" Outros grupos, vindos de Tiberíades, de Betsaida e de Cafarnaum, logo aparecem e se lhes ajuntam. E vão seguindo o pequeno grupo daqueles treze homens. Ao atingirem o topo do monte onde uma fresca brisa, vinda da planície, lhes refrigera o rosto causticado pelo sol, Jesus pára e acena à multidão para que Se assente e descanse.
Há como que uma pausa no ar. Trata-se dum momento que deve ser apanhado e guardado por toda a eternidade. A multidão se aquieta, enquanto Jesus sobe ao topo duma grande rocha vermelha e ali Se assenta. Lá no vale, na estrada deserta, um viajar solitário cavalga seu camelo, rumando para Tiberíades. Grande silêncio se faz naquela multidão, à medida que olham todos com expectação para Jesus. Eis que Ele abre Sua boca e começa a falar.
Aquilo que Ele disse lá no Monte das Beatitudes na longínqua Palestina ia ficar na história como as palavras mais profundas e sublimes até hoje pronunciadas neste mundo! Sim, ali, com palavras reverentes, bem medidas e duma simplicidade sem igual, revelou Jesus o segredo da felicidade – não duma felicidade superficial de tempo e espaço, mas dessa felicidade que permanece para sempre.
A palavra feliz foi a primeira que saiu de Sua boca. Imediatamente os Seus ouvintes devem ter aparelhado bem os ouvidos, como o devemos fazer também. Nas páginas que se seguem é minha oração e sincero desejo que você, amado leitor, faça ainda mais que isso: que você prepare não só os seus ouvidos, mas também abra o seu coração e renuncie a sua vontade. Então, você começará a viver essa vida que se inicia com V maiúsculo, e encontrará um contentamento e uma alegria que excluirão toda a futilidade e todo o vazio de sua vida cotidiana, facultando-lhe descobrir o segredo da felicidade!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ENIGMAS DAS BIBLIA - 3

1 SAMUEL 28:7ss - Como Deus pôde permitir que a feiticeira de En-Dor tenha feito Samuel subir de entre os mortos, já que Deus condena a necromancia?

PROBLEMA: A Bíblia condena com severidade toda feitiçaria e comunicação com os mortos (Êx 22:18; Lv 20:6, 27; Dt 18:9-12; Is 8:19). No AT, os que praticassem essas coisas receberiam a pena de morte. O rei Saul sabia disso e até mesmo expulsou todas as feiticeiras da terra de Israel (1 Sm 28:3). O problema é que parece que ela teve sucesso no contato com Samuel, o que dá validade aos poderes da feitiçaria, que a Bíblia de forma tão severa condena.

SOLUÇÃO: Várias possíveis soluções têm sido apresentadas a este caso de En-Dor. Três delas são aqui apresentadas, resumidamente.

Primeiro, alguns crêem que a feiticeira operou um milagre por meio de poderes demoníacos e de fato trouxe Samuel dos mortos. Como justificativa, citam passagens que indicam que os demônios têm o poder de realizar milagres (Mt 7:22; 2 Co 11:14; 2 Ts 2:9-10; Ap 16:14). As objeções a essa posição incluem o fato de que a morte é o fim (Hb 9:27); que os mortos não podem retornar (2 Sm 12:23) porque há um grande abismo colocado por Deus (Lc 16:24-27), e que os demônios não podem usurpar a autoridade de Deus sobre a vida e a morte (Jó 1:10-12).

Segundo, outros têm sugerido que na verdade a feiticeira não fez subir Samuel de entre os mortos, mas que foi simplesmente uma fraude. Para explicar isso, referem-se aos demônios que enganam as pessoas que tentam estabelecer contato com os mortos (Lv 19:31; Dt 18:11; 1 Cr 10:13) e argumentam que os demônios às vezes proferem o que é verdade (cf . At 16:17). As Objeções a essa posição incluem o fato de que a passagem parece dizer que Samuel realmente voltou dos mortos, que a profecia de Samuel foi algo que veio a acontecer e que é improvável que demônios tenham proferido verdades de Deus, já que o diabo é o "pai da mentira" (Jo 8:44).

Uma terceira posição é que a feiticeira não fez subir Samuel de entre os mortos, mas Deus mesmo interveio na tenda para repreender Saul pelo seu pecado. As razões dessa posição são: (a) Samuel parece ter realmente voltado dos mortos (v. 14), mas (b) nem os homens nem demônios têm o poder de trazer pessoas mortas (Lc 16:24-27; Hb 9:27); (c) até mesmo a feiticeira parece surpreender-se com o aparecimento de Samuel, provindo dos mortos (v.12); (d) esta passagem condena diretamente a feitiçaria (v. 9), portanto é bem improvável que ela lhe desse crédito declarando que feiticeiros podem realmente trazer de volta pessoas mortas; (e) Deus às vezes fala em lugares insuspeitos por meios fora do comum (cf. a jumenta de Balaão, Nm 22); (f) o milagre não foi realizado pela feiticeira, mas apesar dela; (g) Samuel parece realmente aparecer provindo dos mortos, censurar Saul e proferir uma profecia verdadeira (v. 19); (h) Deus condenou explícita e repetidamente o contato com os mortos (veja acima) e não contradiria isso, dando crédito à feitiçaria.

As maiores Objeções a esta posição baseiam-se no fato de que o texto não diz explicitamente que foi Deus quem realizou aquele ato sobrenatural e que a tenda de uma feiticeira seria um lugar bem estranho para ele operar algo assim.