segunda-feira, 2 de novembro de 2009
A TEOLOGIA DE LUTERO - PARTE 2
PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA TEOLOGIA DE LUTERO
Muitas vezes se tem assinalado a assim chamada crítica de Lutero ao cânone (certas afirmações sobre a Epístola de Tiago, entre outras) como exemplo de sua liberdade face à autoridade da Escritura. Mas isto conduz a equívocos. Realmente Lutero não considerava o cânone do Novo Testamento como fixado de modo absoluto. Em sua opinião, quatro dos últimos livros do Novo Testamento ( Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse) eram apócrifos, ou escritos cuja autenticidade apostólica eram, acima de tudo, decisivos na determinação da canonicidade. Assim, por exemplo, o que a Epístola de Tiago diz sobre fé e obras é interpretado como indicação que a epístola não é nem apostólica e nem canônica. (Na tradição protestante, foi só na época de Gerhard que também os assim chamados antilegômena entre os escritos neotestamentários começaram a ser reconhecidos como verdadeiramente canônicos.)
Apesar de certas semelhanças, há grande contraste entre a interpretação da Bíblia feita por Lutero e a moderna interpretação histórica, mas este contraste tem sido frequentemente ignorado. É verdade, sem dúvida, que Lutero atribuiu a maior importância ao que ele denominou o sentido literal ou histórico da escritura. Mas com isso ele não entendia a interpretação histórica no moderno sentido do termo; foi antes uma percepção derivada do contexto da fé. Lutero acreditava, por exemplo, que o Antigo Testamento é testemunha direta de Cristo, e não simplesmente que contém algumas prefecias a respeito dele. A concepção da “História das religiões” sobre a interpretação da Bíblia era desconhecida naquela época.
A idéia que Lutero fazia do Antigo Testamento correspondia aos pensamentos que desenvolveu com respeito à relação entre lei e evangelho. A lei mosaica, no sentido jurídico, foi abolida por Cristo. Fora para os judeus o que as leis saxônicas eram para os alemães e, portanto, válida apenas para certo povo num tempo determinado. A lei, contudo, recebeu cumprimento mais elevado que a obediência externa aos mandamentos. Aponta ao evangelho e atinge seu cumprimento apenas através da proclamação da justiça pela fé em Cristo. A lei, portanto, é preservada, e como mandamentos de Deus, aos quais todos os homens estão sujeitos, é válida mesmo na era do Novo Testamento. Ao mesmo tempo, porém, podemos também ver o evangelho no Antigo Testamento. Cristo também está nele, não apenas como o futuro Messias, predito na lei e nos profetas, mas também como aquele que fala diretamente nos Salmos e através dos profetas.
A interpretação bíblica tradicional da Idade Média mantinha que a Escritura tem sentido quádruplo. Podia ser exposta literalmente, tropologicamente (isto é, com respeito ao cristão individual), anagogicamente (isto é, com respeito à eternidade) e também alegoricamente, o que significava que se podia, por exemplo, fazer a Palavra se pronunciar sobre realidade gerais no mundo da fé ou da igreja.
Lutero rejeitou tal estrutura. Em sua opinião, a escritura tem apenas um sentido próprio, o gramatical ou histórico. Naturalmente, também reconhecia a interpretação figurativa que se encontra na própria Bíblia, como por exemplo nos paralelos estabelecidos entre Cristo e certos personagens do Antigo Testamento (tipologia). Lutero também falou (especialmente em seus primeiros sermões) de um sensus spiritualis ou mysticus, que aponta diretamente à alegoria. Mas este ponto de vista recebeu posição subordinada. Não era fidedigno, e aparecia nos sermões de Lutero apenas como adorno tradicional da exposição da Escritura. Em anos posteriores, Lutero abandonou mais e mais essa espécie de interpretação da Bíblia.
No conceito de Escritura de Lutero há a idéia que a Bíblia pode ser entendida por si mesma, agindo cada pessoa como seu próprio intérprete. As interpretações da tradição ou do clero não são necessárias para a correta compreensão da Bíblia (como os tólogos católicos romanos diziam). A Palavra possui em si a “clareza externa” que ela transmite e administra através do ministério (in ministerio verbi). É por esta razão também que a Escritura - sem o acréscimo de mandamentos humanos e opiniões doutrinárias – é o único fundamento da fé.
A “clareza externa” da Palavra deve se distinguida da assim chamada “clareza interna”, que é o cerne da compreensão do conteúdo da Escritura. Esta chega a existir apenas por meio do Espírito Santo, que ilumina e instrui o homem internamente. Lutero também ressaltava o significado da experiência para a correta compreensão da palavra de Deus. A educação na fé, juntamente com a experiência que é dada quando se aplica a fé quando se passa por tribulações de vários tipos, é necessária para uma genuína percepção da palavra (a escola do Espírito Santo).
É característica da teologia da Reforma que a Palavra seja colocada no centro das coisas, não apenas como fonte de percepção da realidade sobrenatural, mas também como Palavra eficaz, criadora e vivificante, pela qual Deus julga e soergue. A fé se relaciona com a própria palavra, não simplesmente como uma realidade metafísica existente por detrás da palavra, e nela encontra a salvação. Nisto podemos ver um contraste fundamental entre a teologia da Reforma e a teologia escolástica.
sábado, 17 de outubro de 2009
A TEOLOGIA DE LUTERO - PARTE I
BASES DA FORMAÇÃO TEOLÓGICA DE LUTERO.
Lutero foi sem dúvida o principal nome da Reforma (1483-1546). Lutero iniciou seus estudos em Erfurt, em 1501. O acontecimento na vida de Lutero que muito influênciou sua teologia, foi a sua entrada ao mosteiro dos eremitas agostinianos em Erfurt a 17 de julho de 1505, a qual se deu logo após a conclusão do estudo artístico com licentiatura de magister (mestrado). Inicialmente Lutero vai sofrer a influência do occamismo. Os “occamistas” de Efurt eram discípulos do último grande occamista Gabriel biel em Tibingen, o qual naturalmente tinha sua teologia de cunho próprio, e se encontravam em todos os casos com isso indiretamente dentro da tradição occamista. E o próprio Occam, um franciscano procedente da Inglaterra na primeira metade do século XVI, se situa com toda a sua orientação novamente na tradição de toda a escola dos franciscanos. Para esses, em todos os casos desde Duns Scotus, Deus não é como para Tomás de Aquino e toda a sua escola o ser supremo e inimaginável, mas sim a vontade onipotente. Sua onipotência, liberdade e majestade absoluta é que perfazem o caráter divino de Deus, e toda a teologia dos franciscanos é teologia da soberania de Deus. Já a sua doutrina do conhecimento é determina a partir daí. Deus não se torna cognoscível através da razão, com a qual procuramos compreendê-lo, mas pela revelação, na qual ele se nos dá livremente a conhecer. Salvação e bem-aventurança são concedidas àqueles que Deus elegeu para isso através de uma aceitação, uma acceptatio de Deus. No entanto os franciscanos não vêem apenas em Deus a liberdade perfeita. Também o homem é um ente livre. Ele tem todas as possibilidades de fazer o bem e de se fazer digno da aceitação. A doutrina da salvação dos franciscanos, especialmente a occamista, também conta com a liberdade humana e resulta num dramático conflito entre liberdade de Deus e a liberdade do homem. Não é bem claro de que maneira reage interiormente a pessoa que se deixa atingir pessoalmente pelas sentenças teológicas occamistas. Occamismo também foi muitas vezes sentido como um caminho bastante seguro para ser aceito. Provavelmente Lutero quis trilhar esse caminho seguro, afligido pelo seu estado presente, mas colocando suas esperanças nas boas obras, através das quais ele haveria de se tornar perfeito e digno da aceitação por parte de Deus. Em todos os casos, a teologia occamista, na medida em que ela já influência o estudante de Filosofia Lutero, deve ter sido por ele interpretada de modo incomum para a esfera pessoal; e com isso já nos encontramos novamente no campo da personalidade, - Por menos que possamos jamais enxergar os detalhes, Lutero deve tido uma luta religiosa interior.
É evidente que como um sacerdote, Lutero iria receber uma formação teológica de acordo com os princípios da sua ordem. Sobretudo a obra de Gabriel Biel sobre o cânone da missa, ou seja as orações que antecedem o sacrifício, Lutero que estudar a fundo. Mas um estudo teológico propriamente dito não era uma condição para a ordenação ao sacerdócio, e podia se seguir a essa. Assim se deu com Lutero. Estudar teologia significava aprofundar-se num determinado número de obras teológicas. Nós sabemos com bastante precisão quais foram as obras que Lutero estudou e podemos supor que ele realmente as assimilou em grande parte. Lutero era dono de uma brilhante memória; e para uma época, em que o número dos livros a serem lidos era bastante menor que hoje, podemos contar de um modo geral com um grau de assimilação literal que hoje não mais conhecemos. Com certeza Lutero estudou profundamente as seguintes obras teológicas: As sentenças de Pedro Lombardo, e como comentários das mesmas o assim chamado Colletaneum de Gabriel Biel e as Quaestiones de Guilherme de Occam e as de um teólogo da época do Concílio de Constança, Pierre d’Ailli, e, para a interpretação da escrita, a Glossa Ordinária (atribuída a Walahfrid Strabo, do nono século). Como a pesquisa católica fez questão de salientar, estas são todas elas obras da escolástica posterior, nominalista, exceto naturalmente o comentário bíblico mencionado por último e as Sentenças do bispo parisiense Pedro, chamado o Lombardo, as quais foram escritas já no século XII, antes do surgimento dos grandes sistemas escolásticos. Mas ao que tudo indica, as Sentenças, usadas em toda parte, já havia séculos, como livro de doutrina dogmática, se tornaram conhecidas e familiares a Lutero dentro da interpretação nominalista. Mesmo assim dificilmente se poderá sustentar a tese católica de que Lutero não teria conhecido de maneira alguma o catolicismo clássico da Alta Escolástica, mas sim uma distorção que dificilmente ainda era católica, ou seja o nominalismo. Por um lado, até hoje o nominalismo ainda não foi condenado por mais prioridade que se dê a Tomás de Aquino; por outro mesmo não havendo certeza se Lutero então já pode estudar a “Summa Theologiae” de Tomás de Aquino, ele ao menos chegou a conhecer a Tomás, Duns e Alexandre de Hales, e hoje está se evidenciando que o personagem mais recente do nominalismo, representado por Gabriel Biel em Tubigen (1495). Talvez já teria assumido novamente uma coloração tomista. O conhecimento da escolástica por parte de Lutero não foi nem permaneceu unilateral. Ao estudo de livros se acrescentava a obrigação de ouvir preleções na universidade e no estudo geral da ordem do mosteiro. Nas preleções eram novamente lidos livros, intercalando-se ocasionalmente explicações. Havia ainda uma tarefa que se atribuía ou podia ser atribuída ao estudante de teologia. Se ele tinha concluído bem o seu estudo artístico, ele era graduado, ou seja, ele se tornava bacharel e depois Magister artium. Com isso, porém, ele tinha o direito de ensinar nos estudos artísticos. Numa faculdade ele ensinava, noutra ele estudava. Desse direito Lutero fez uso durante seus anos no convento. Sim, até aconteceu que a ordem simplesmente o transferiu para Wittenberg. Ali havia uma universidade recentemente fundada, na qual a ordem tinha que preencher várias cadeiras. Em 1508 o jovem Lutero teve que assumir uma cadeira de filosofia moral na idade de 25 anos, se bem que por um tempo relativamente curto. Alí ele teve que dar preleções sobre a Ética Nicomaquiana de Aristóteles.
A doutrina da predestinação impregnava fortemente os temores de Lutero no convento. Lutero sabia haver pessoas que, em virtude de imperscrutável decisão de Deus, estavam pre-determinadas para a bem-aventurança, e outras para a condenação. Lutero sentiu de modo angustiante, temporariamente até medo arrasador, que ele poderia estar entre os condenados. O medo de Lutero era medo da predestinação. Aquilo que ele observava e sentia em si mesmo ele acreditava ser um sinal de que ele estaria condenado. “Horrível medo me assaltou, ao desespero me levou, lançando-me ao inferno” – essas palavras de seu hino composto muito mais tarde (possivelmente me 1523; “Cristãos, vós todos jubilai”) se referem a sua terrível experiência da época do convento. É impossível dar uma explicação resumida e conclusiva que esclarecesse tudo nessa catástrofe interior de Lutero. É de Agostinho que a igreja recebeu a doutrina da predestinação efetuada por aquele Deus que através de soberana decisão divino concede a uns a graça irresistível, destinando-os à bem aventurança, enquanto que deixa os outros a sós, à mercê da perdição. O medo da predestinação de saída faz pensar em influência de Agostinho. – Apesar dessas explicações que de modo algum explicam tudo, mas apenas conseguem esclarecer certos contextos, é difícil chegar a resultados claros, uma vez que não se consegue localizar a época em que Lutero começou a ter esses temores, tampouco quando ele começou a se profundar em Agostinho. Observações da mão de Lutero à margem de textos de Agostinho nós possuímos do ano 1509. Mas isso não ajuda muito. Nós precisamos nos contentar com a constatação de que o Occamismo e Agostinho também desempenharam um papel muito importante não só na formação do monge Lutero, como na formação do Lutero teólogo.
Como é sabido Agostinho foi fortemente fecundado pelo neo platonismo, e sua teologia é um dos portões de entrada do pensamento neoplatônico no pensamento cristão. Esquemas de pensamento como mundo superior e inferior, eterno e terreno em Lutero provêm de Agostinho ou mesmo do neo-platonismo. Seja qual for a validade da tese do elemento neoplatônico-agostiniano na primeira preleção sobre os Salmos, em todos os casos é necessário perguntar se a teologia de Agostinho prestou serviços de obstreta em seu renascimento. Esse certamente foi o caso. Como occamista, Lutero cresceu numa concepção do mundo que deduz tudo da vontade e juízo de deus, tanto o pecado do homem como também a graça que lhe é concedida. Pecado significa em primeiro lugar que Deus está irado com uma pessoa, e graça, que deus lhe proporciona sua bondade misericordiosa ou que aceita suas boas obras. Bom e mau não são qualidades do homem, mas conceitos que Deus dá sobre a pessoa. Aquilo que a pessoa é, ele é pelo juízo de que Deus dela faz. Para a conceituação sobre o homem pecador isso podia tornar-se perigoso. O homem que é repudiado perante Deus talvez pode, desconsiderando-se uma vez esse julgamento de Deus, ser moralmente muito valioso e bem sucedido, só que ele não pode alcançar totalmente benevolência desse Deus enigmático. Também é nisso que resulta a doutrina occamista sobre o homem: O homem faz aquilo que está dentro de si. Desenvolve todas as suas boas potencialidades; aproveite a graça – e então Deus também haverá de modificar seu conceito e lhe concederá sua benevolência. Em contraposição à concepção occamista do homem pecado, Lutero desenvolveu uma antropologia própria e bem diferente. Ele tem uma concepção bem inoccamista do pecado. Pecado não é apenas um conceito atribuído por Deus, mas uma corrupção muito profunda, um dano terrível. Esse fato do ser o pecado algo tão terrível, um acorrentamento ao egoísmo, Lutero experimentou no convento. Mas ele podia ter aprendido de Agostinho .
Lutero era um teólogo essencialmente bíblico. Isso pode significar simplesmente que ele era um professor de exegese, sobretudo do Antigo Testamento, na Universidade de Wittenberg. Em termos mais amplos, contudo, isso significa uma ruptura radical com o currículo padrão da teologia escolástica e uma reorientação da teologia ao texto bíblico.
Lutero instrui-se completamente na tradição nominalista da baixa Idade Média. Em certos tópicos, tais como a questão dos universais, Lutero continuou sendo um expoente da via moderna, mesmo após seu aparecimento como reformador. Entretanto, bem cedo em sua carreira, quando ainda um Sententarius, Lutero revelou um profundo ceticismo acerca do valor da atividade teológica: “A teologia é céu, sim, mesmo o reino dos céus; o homem, entretanto, é terra, e suas especulações são fumaça”. A percepção de Lutero com respeito ao abismo intransponível entre a teologia e as “especulações” humanas intensificou-se à medida que ele mergulhava mais profundamente nos textos bíblicos. A partir de 1515, ele se referiu aos nominalistas com “teólogos-porcos”. Em setembro de 1517, aproximadamente dois meses antes da explosão da controvérsia das indulgências, Lutero resumiu seu ataque contra a teologia escolástica num disparo contra Aristóteles:
É um erro dizer que homem não pode tornar-se teólogo sem Aristóteles. A verdade é que não pode tornar-se teólogo sem se livrar de Aristóteles. Em resumo, comparado com o estudo da teologia, o todo de Aristóteles é como a escuridão para a luz.
Lutero não tinha nada contra Aristóteles em si. O que ele rejeitava era todo o esforço da teologia escolástica de fazer da filosofia Aristótelica a pressuposição da doutrina cristã, de interpretar a revelação bíblica relativamente à “sofística” pagã,de reduzir os grandes temas das Escrituras – graça, fé, Justificação – à algaravia escolástica. No espírito de Tertuliano, Lutero perguntava o que Jerusalém tinha a ver com Atenas, a igreja com a academia, a fé com a razão.
Para lutero Lutero, no campo da verdadeira teologia, a razão funcionava apenas expost facto, ou seja, como princípio ordenador pelo qual a revelação bíblica era claramente apresentada. A razão iluminada, a razão incorporada ã fé, poderia assim “servir a fé ao pensar sobre alguma coisa”, porque a razão informada pelo Espírito Santo “extrai todos os seus pensamentos da Palavra”. Isso deve ser firmemente lembrado quando ouvimos a famosa declaração de Lutero em Worms: “A menos que seja condenado pelas Escrituras e pela razão simples, não posso e não irei me retratar”. A razão não era uma fonte independente de autoridade paralela às Escrituras – sua consciência ainda estava “cativa à Palavra de Deus”- mas meramente a inferência necessária das próprias Escrituras. Lutero não depreciava a racionalidade humana; ele até mesmo conferiu à razão redimida uma tarefa funcional no trabalho da teologia. O que ele realmente rejeitou como teólogo bíblico foi a arrogância da razão, que, na teologia escolástica, tirou a primazia da revelação.
Quando chamamos Lutero de teólogo existencialista, queremos dizer que, para ele, o interesse por Deus era uma questão de vida ou morte , envolvendo não apenas o intelecto de um homem, mas sua existência como um todo. Para Lutero a teologia era sempre intensamente pessoal, experiencial e relacional.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
A FALTA QUE FAZEM OS PROFETAS - Pr. RICARDO GONDIM
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
AS BASES DA TEOLOGIA CONTEMPORÃNEA
AS ORIGENS DA TEOLOGIA CONTEMPORÃNEA
As profundas transformações científicas e culturais ocorridas no século XVIII, transformaram completamente as condições, sob as quais, se pensava e se fazia teologia. As raízes do Iluminismo se encontram no humanismo, no socialismo e no deismo. Tudo isso com base na filosofia de descartes, Leibnitz e Loocke. As mudanças sociais, políticas, filosóficas e científicas, aconteceram de modo tão rápido que as velhas estruturas, perderam o controle, até mesmo a igreja. A visão metafísica da realidade, foi substituída por uma visão empírica e atomística. Com isso, o mundo espiritual, centrado em Deus, cede lugar a um mundo material, centrado, centrado nas leis da natureza. A filosofia deixa de ser serva da teologia, para assumir uma postura analítica e crítica da sociedade. A educação é liberada da influência da teologia escolástica, passando a basear-se em princípios racionais. A influência do Iluminismo sobre a teologia produz o conceito de religião natural, que considera Cristo um mestre, sábio entre os homens, no lugar de considera-lo a encarnação a encarnação de Deus, conforme a teologia dogmática. Em oposição ao Iluminismo, a igreja, tanto na confissão católica, quanto na confissão protestante, desenvolveu a cultura das confissões de fé. Com isso, a secularização desenvolveu uma cultura das confissões à parte e fora do controle da igreja. A teologia tornou-se dependente da filosofia e do pensamento racionalista. Paralela à racionalização da teologia, surge uma tendência de moralização do cristianismo fora dos cânones da religião organizada. Desse modo, a principal característica da teologia iluminista foi a tendência de humanizar o cristianismo, acomodando-o numa estrutura antropocêntrica.
O ILUMINISMO
foi um movimento filosófico racionalista , científico e político iniciado na segunda metadE do século XVII e que dominou a Europa durante todo o século XVIII. Fundamentava-se em bases racionais e otimistas assentadas pelos pensadores da revolução intelectual do século XVII. A filosofia do Iluminismo, tal como expressa nas obras e popularizadores, incluía entre seus princípios basilares as seguintes idéias e assertivas:
O lugar dos homens e mulheres no universo. Os homens e mulheres não eram mais tidos como a explicação para a existência do universo, tal como no ideário teológico do período medieval. Ao invés disso, eram considerados apenas como um dos elos numa cadeia de seres, ordenada racionalmente, que abrangia todos os seres vivos. Contudo, o fato de estarem submetidos a um ordenamento universal de modo algum os tornava impotentes ou destituídos de objetivo.
Atitudes com relação a Deus e à religião organizada. Um universo racionalmente ordenado, sujeito a leis invariáveis, excluía a existência de um Deus pessoal, que pudesse intervir, através de milagres, para contradizer essas leis. Se Deus realmente existia, como acreditava à maioria dos filósofos do Iluminismo, era simplesmente como uma causa primeira, a forma que criado as leis, que as pusera me movimento e que garantia se contínuo funcionamento. Os que se atinham a essa concepção chamavam a si próprios deístas. Atacavam os fundamentos bíblicos do cristianismo, submetendo a Bíblia a uma crítica erudita e depois sustentando que o relato bíblico não passava de mitologia. Aliaram-se a um grupo maior de críticos, denunciando as religiões institucionalizadas como instrumentos de exploração, imaginados por patifes e tratantes, a fim de poderem tirar proveito das massas ignorantes. Rejeitavam como inúteis as orações e sacramentos do cristianismo organizado; Deus, argumentavam, não pode ser persuadido a desprezar a lei natural em benefício desta ou daquela pessoa. Condenavam como perniciosa a doutrina do pecado original. Homens e mulheres dispõem de liberdade e de aptidão racional para escolher entre o bem e o mal; a idéia de que alguns estão predestinados à salvação e outros para a condenação nega à humanidade a dignidade com que sua razão a dotou.
Ênfase nos assuntos e preocupações deste mundo. A substituição de modelos divinos de comportamento por modelos terrenos era parte de um movimento mais amplo, característico do Iluminismo, que acentuava a importância de se compreender rigorosamente o mecanismo deste mundo, ao mesmo tempo em que se descartava, por incognoscível ou inconcebível, a existência de algum mundo celestial vindouro.
Durante o Iluminismo, acentua-se o impulso racionalista que assaltava a teologia protestante no período escolástico: agora não se contenta mais em provar a racionalidade da fé demonstrando que as verdades reveladas se harmonizam com os cânones da razão, mas também submete a Revelação ao tribunal da razão,dando a esta o dever de purifica-la de todos os elementos sobrenaturais.
A passagem do racionalismo escolástico ao racionalismo iluminista foi gradual. O primeiro momento da Revelação bíblica, valendo-se dos mesmos argumentos que a Ortodoxia invocava anteriormente. Esta afirmara que nenhum homem intelectualmente honesto poderia rejeitar a autoridade da Bíblia. Nenhum filósofo, fiel à filosofia e ao sadio exercício da razão, poderia colocar seriamente em dúvida as doutrinas fundamentais da fé cristã. Muitos expoentes do pensamento religioso protestante do século XVIII fazem suas essas teses da Ortodoxia e procuram novos argumentos para provar a veracidade do cristianismo. Para tanto, alguns recorrem à filosofia, outros a filologia e outros ainda à história.
Os maiores efeitos do emprego da filosofia no campo teológico manifestam-se bem claramente em Emmanuel Kant (1724-1804). Mostra que a filosofia especulativa não pode prestar qualquer auxílio à religião porque não pode demonstrar nem mesmo a existência de Deus. Esta só pode ser alcançada seguindo as exigências práticas da moral. Na obra A Religião dentro dos limites da Razão, elabora uma interpretação racionalista da Revelação cristã, na qual todos os elementos dogmáticos são reduzidos a simples símbolos. Assim, por exemplo, Jesus é o símbolo da luta da humanidade contra o mal e de sua vitória sobre este.
Contra Kant elevou-se o protesto solitário de Johann G. Hamann (1730-1788). Este contestou a utilização que o filósofo fizera da razão: não se pode presumir que ela se erija em juiz da Revelação. Deus não fala ao homem somente através da razão, mas também de uma totalidade de manifestações. Toda a realidade é revelação de Deus e a Escritura ocupa posição privilegiada em relação à natureza e à história, que são como seus comentários, já que constituem antecipações suas e não o oposto. Mas a Escritura só tem um caráter revelador para quem tem fé.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
EM BUSCA DA FELICIDADE
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
ENIGMAS DAS BIBLIA - 3
1 SAMUEL 28:7ss - Como Deus pôde permitir que a feiticeira de En-Dor tenha feito Samuel subir de entre os mortos, já que Deus condena a necromancia?
PROBLEMA: A Bíblia condena com severidade toda feitiçaria e comunicação com os mortos (Êx 22:18; Lv 20:6, 27; Dt 18:9-12; Is 8:19). No AT, os que praticassem essas coisas receberiam a pena de morte. O rei Saul sabia disso e até mesmo expulsou todas as feiticeiras da terra de Israel (1 Sm 28:3). O problema é que parece que ela teve sucesso no contato com Samuel, o que dá validade aos poderes da feitiçaria, que a Bíblia de forma tão severa condena.
SOLUÇÃO: Várias possíveis soluções têm sido apresentadas a este caso de En-Dor. Três delas são aqui apresentadas, resumidamente.
Primeiro, alguns crêem que a feiticeira operou um milagre por meio de poderes demoníacos e de fato trouxe Samuel dos mortos. Como justificativa, citam passagens que indicam que os demônios têm o poder de realizar milagres (Mt 7:22; 2 Co 11:14; 2 Ts 2:9-10; Ap 16:14). As objeções a essa posição incluem o fato de que a morte é o fim (Hb 9:27); que os mortos não podem retornar (2 Sm 12:23) porque há um grande abismo colocado por Deus (Lc 16:24-27), e que os demônios não podem usurpar a autoridade de Deus sobre a vida e a morte (Jó 1:10-12).
Segundo, outros têm sugerido que na verdade a feiticeira não fez subir Samuel de entre os mortos, mas que foi simplesmente uma fraude. Para explicar isso, referem-se aos demônios que enganam as pessoas que tentam estabelecer contato com os mortos (Lv 19:31; Dt 18:11; 1 Cr 10:13) e argumentam que os demônios às vezes proferem o que é verdade (cf . At 16:17). As Objeções a essa posição incluem o fato de que a passagem parece dizer que Samuel realmente voltou dos mortos, que a profecia de Samuel foi algo que veio a acontecer e que é improvável que demônios tenham proferido verdades de Deus, já que o diabo é o "pai da mentira" (Jo 8:44).
Uma terceira posição é que a feiticeira não fez subir Samuel de entre os mortos, mas Deus mesmo interveio na tenda para repreender Saul pelo seu pecado. As razões dessa posição são: (a) Samuel parece ter realmente voltado dos mortos (v. 14), mas (b) nem os homens nem demônios têm o poder de trazer pessoas mortas (Lc 16:24-27; Hb 9:27); (c) até mesmo a feiticeira parece surpreender-se com o aparecimento de Samuel, provindo dos mortos (v.12); (d) esta passagem condena diretamente a feitiçaria (v. 9), portanto é bem improvável que ela lhe desse crédito declarando que feiticeiros podem realmente trazer de volta pessoas mortas; (e) Deus às vezes fala em lugares insuspeitos por meios fora do comum (cf. a jumenta de Balaão, Nm 22); (f) o milagre não foi realizado pela feiticeira, mas apesar dela; (g) Samuel parece realmente aparecer provindo dos mortos, censurar Saul e proferir uma profecia verdadeira (v. 19); (h) Deus condenou explícita e repetidamente o contato com os mortos (veja acima) e não contradiria isso, dando crédito à feitiçaria.
As maiores Objeções a esta posição baseiam-se no fato de que o texto não diz explicitamente que foi Deus quem realizou aquele ato sobrenatural e que a tenda de uma feiticeira seria um lugar bem estranho para ele operar algo assim.