sábado, 28 de novembro de 2009

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ENIGMAS DA BÍBLIA - 4 (Norman Geisler)

GÊNESIS 22:2 - Por que Deus pediu a Abraão que sacrificasse seu filho, tendo o próprio Deus condenado o sacrifício humano em Levítico 18 e 20?

PROBLEMA: Tanto em Levítico 18:21 como em 20:2, Deus especificamente condenou o sacrifício humano, ao ordenar a Israel: "E da tua descendência não darás nenhum para dedicar-se a Moloque" (Lv 18:21); e "Qualquer dos filhos de Israel... que der de seus filhos a Moloque, será morto; o povo da terra o apedrejará" (Lv 20:2). Contudo, em Gênesis 22:2, Deus ordenou a Abraão: "Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei". Isso parece estar em total contradição com o seu mandamento para não oferecer sacrifícios humanos.

SOLUÇÃO: Primeiro, Deus não estava interessado em que Abraão viesse de fato a matar o seu filho, nem era esse o seu plano. O fato de o anjo do Senhor ter impedido que Abraão matasse Isaque (22:12) revela isso. O propósito de Deus foi provar a fé de Abraão, com o pedido de que entregasse completamente aquele seu único filho a Deus. O anjo do Senhor declarou que era a disposição de Abraão de entregar o seu filho, e não o ato de realmente matá-lo que satisfez as expectativas de Deus com respeito a Abraão. Deus disse explicitamente: "Não estendas a mão sobre o rapaz... pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho" (Gn 22:12).

Segundo, as proibições tanto em Levítico 18:21 como em 20:2 eram especificamente contra o oferecimento de um filho ao deus pagão chamado Moloque. Portanto não é uma contradição Deus ter proibido oferendas de vidas a Moloque e ter solicitado a Abraão que oferecesse o seu filho a si, ao único e verdadeiro Deus. É claro, oferecer um filho em sacrifício ao Senhor não é o mesmo que oferecê-lo a Moloque, já que o Senhor não é Moloque. Apenas Deus é soberano sobre toda vida (Dt 32:39; Jó 1:21), e portanto somente ele tem o direito de pedir a vida de alguém. Com efeito, é Deus que determina o dia da morte de cada um (SI 90:10; Hb 9:27).

Terceiro, Abraão confiou no amor e no poder de Deus de tal maneira que voluntariamente obedeceu, crendo que o Senhor ressuscitaria Isaque dentre os mortos (Hb 11:17-19). Isto está implícito no fato de que, embora Abraão pretendesse matar Isaque, ele disse aos seus servos: "eu e o rapaz [nós] iremos até lá e, havendo adorado, voltaremos para junto de vós" (Gn 22:5).

Finalizando, não é moralmente errado para Deus pedir que sacrifiquemos um filho a ele. Deus mesmo ofereceu o seu Filho no Calvário (Jo 3:16). De fato, até mesmo o governo de um país muitas vezes pede ao povo que sacrifique seus filhos pelo país. Certamente Deus tem um direito bem maior para requerer isso.

HISTÓRIA DOS HEBREUS - Flávio Josefo

CAPÍTULO 1

Criação do mundo. Adão e Eva desobedecem à ordem de Deus, e Ele os expulsa do paraíso terrestre.

1. Gênesis 1. No princípio, Deus criou o céu e a Terra, mas a Terra não era visível porque estava coberta de trevas espessas, e o Espírito de Deus adejava por cima dela. Deus ordenou em seguida que se fizesse a luz, e a luz apareceu imediatamen­te. Depois de ter considerado essa massa, Deus separou a luz das trevas. Às trevas chamou noite, e à luz, dia, dando ao começo do dia o nome de manhã, e ao fim, o de tarde. Foi ao primeiro dia que Moisés chamou "um dia", e não "o primeiro dia", por razões que eu poderia explicar, mas, como prometi escrever sobre todas essas coisas em um trabalho especial, reservo-me para falar disso nele.

No segundo dia, Deus criou o céu, separou-o de todo o resto e colocou-o por cima, como sendo o mais nobre. Rodeou-o de cristal e temperou-o com umida­de própria para formar as chuvas que regam docemente a terra, para torná-la fecunda. No terceiro dia, tornou fixa a terra, rodeou-a pelo mar e fê-la produzir as plantas com as suas respectivas sementes. No quarto dia, criou o Sol, a Lua e os outros astros e colocou-os no céu para lhe serem o ornamento principal. Re­gulou de tal maneira os seus movimentos e o seu curso que eles determinam claramente as estações e as revoluções do ano. No quinto dia, criou os peixes que nadam na água e os pássaros que voam no ar e quis que formassem casais, a fim de crescerem e se multiplicarem, cada um segundo a sua espécie. No sexto dia, criou os animais terrestres e distinguiu-os em sexos diversos, fazendo-os macho e fêmea. E, nesse mesmo dia, criou também o homem. Assim, segundo o que refere Moisés, Deus criou em seis dias o mundo e todas as coisas que nele existem. No sétimo dia, Ele descansou e deixou de trabalhar as grandes obras da criação do mundo: é por esse motivo que não trabalhamos nesse dia e lhe damos o nome de sábado, que em nossa língua quer dizer "descanso".

2. Gênesis 2. Moisés fala ainda mais particularmente da criação do homem. Ele diz que Deus tomou pó da terra, fez o homem e, com a alma, inspirou nele o espírito e a vida. Ele acrescenta que esse homem foi chamado Adão, que em hebreu significa "ruivo", porque a terra de que ele foi formado era dessa cor, que é a cor da terra natural e a qual se pode chamar virgem.

Deus mandou vir os animais, tanto os machos quanto as fêmeas, para dian­te de Adão, e este, o primeiro de todos os homens, deu-lhes os nomes que conservam ainda hoje.

3. Deus, vendo que Adão estava sozinho, enquanto os outros animais ti­nham cada qual uma companheira, quis também dar-lhe uma consorte. Para isso, quando ele estava adormecido, tirou-lhe uma das costelas, da qual for­mou a mulher. E, logo que Adão a viu, percebeu que ela havia sido tirada dele e que era parte dele mesmo. Os hebreus dão à mulher o nome de Issa, e a que foi a primeira de todas chamou-se Eva, isto é, "mãe de todos os viventes".

4. Moisés narra em seguida como Deus plantou do lado do oriente um delicioso jardim, que cumulou de todas as espécies de plantas, entre elas, duas árvores, uma das quais era a árvore da vida, e a outra, a da ciência, que ensinava a discernir o bem do mal. Ele colocou Adão e Eva nesse jardim e mandou que cultivassem as plantas. O jardim era regado por um grande rio, que o rodeava completamente e se dividia em quatro outros rios. O primeiro desses rios, chamado Pisom, que significa "plenitude" e ao qual os gregos chamam Canges, corre para a índia e desemboca no mar. O segundo, que se chama Eufrates e Fora, em nossa língua, significa "dispersão" ou "flor", e o terceiro, a que chamam Tigre ou Diglath, que significa "estreito e rápido", ambos desembocam no mar Vermelho. O quarto, de nome Giom, que significa "que vem do oriente", é chamado Nilo pelos gregos e atravessa todo o Egito.

5. Deus ordenou a Adão e Eva que comessem de todos os frutos, mas lhes proibiu de tocar no da ciência, alertando-os de que morreriam se o comessem. Havia então perfeita harmonia entre todos os animais, e a serpente estava muito acostumada com Adão e Eva. Mas como a sua malícia a fizesse invejar a felicidade de que ambos desfrutariam se observassem a ordem de Deus e julgasse ela que, ao contrário, eles seriam vítimas de todas as desgraças se desobedecessem, tratou de persuadir Eva a comer do fruto proibido. Para melhor induzi-la, disse-lhe que o fruto continha uma virtude secreta, que dava o conhecimento do bem e do mal, e que se ela e o marido comessem dele, seriam tão felizes quanto Deus. Assim, a serpente enganou a mu­lher, e esta desprezou a ordem divina: comeu o fruto, alegrou-se por tê-lo feito e induziu Adão a comê-lo também. Ora, como era verdade que o fruto dava grandíssimo discernimento, eles logo perceberam que estavam nus e sentiram vergonha. Então tomaram folhas de figueira para se cobrir, julgando-se mais felizes do que antes, porque agora conheciam o que até ali haviam ignorado.

Deus entrou no jardim, e Adão, que antes do pecado conversava familiar­mente com Ele, não ousou apresentar-se, por causa da falta que havia cometi­do. Deus perguntou-lhe por que, em vez de sentir prazer em se aproximar dEle, estava fugindo e se escondendo. Como Adão não soubesse o que respon­der, porque se sentia culpado, Deus lhe disse: "Eu vos havia provido de tudo o que poderíeis desejar para viver sem penas e com prazer uma vida isenta de qualquer cuidado, que teria sido ao mesmo tempo muito longa e feliz. Mas vós vos opusestes ao meu desígnio, desprezastes a minha ordem e não é por res­peito que vos calais, mas porque a vossa consciência vos acusa". Adão, então, fez o que podia para se desculpar, pediu a Deus que lhe perdoasse e lançou a sua falta sobre a mulher, que o enganara e fora a causa de seu pecado. Ela, por sua vez, alegou que a serpente a havia enganado. Por isso Deus, para castigar Adão por assim se ter deixado vencer, declarou que a terra não produziria mais frutos, a não ser para aqueles que a cultivassem com o suor do rosto, e mesmo assim não daria tudo o que dela se poderia desejar. Castigou também Eva, estabelecendo que, por se haver deixado enganar pela serpente e atraído to­dos aqueles males sobre o marido, ela teria filhos com dor e sofrimento. E, para castigar a serpente pela sua malícia, condenou-a a rastejar pela terra, declaran­do que ela seria inimiga do homem. Depois que Deus impôs a todos o devido castigo, expulsou Adão e Eva daquele jardim de delícias.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

LUTERO E VISÃO ANTROPOLÓGICA - Parte 5

A ANTROPOLOGIA DE LUTERO

Depois de receber o grau de Mestre na Universidade de Erfurt, em 1505,Martinho Lutero entra para Ordem Agostiniana e logo é ordenado sacerdote(1507). De 1508 a 1546 ensina na Universidade de Wittenberg, onde em 1512, recebeu o grau de Doutor em Teologia. Esse título lhe deu oportunidade de tornar-se professor de Teologia Bíblica, a cuja tarefa dedicou-se de corpo e alma.

O estudo da Bíblia acentuou sua luta espiritual, e, levado por experiências pessoais traumáticas, é perseguido por grande sentimento de culpa e pela idéia quase obsessiva de condenação. Seu problema espiritual prendia-se a questão da ambiguidade da natureza humana, o problema do bem e do mal no interior do homem. Neste período fez preleções sobre os Salmos, Romanos, Galátas e Hebreus. Graças ao estudo, principalmente das epístolas de Paulo aos Romanos e aos Gálatas, Lutero descobriu a mensagem sobre a graça de Deus e se convenceu de que o homem é justificado pela fé, encontrando, nessas doutrinas, a tranquilidade para seu espírito angustiado. O texto básico dessa descoberta foi Romanos 1.17: “Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: mas o justo viverá da fé”, que é uma citação do profeta Habacuque, no capítulo 2 e versículo 4: “...mas o justo pela sua fé viverá”.

Por algum tempo Lutero envolve-se na atividade de pregador, e em 1515 torna-se prior de sua Ordem, função que o leva à prática de atividades pastorais.

Depois de observar o que considerava errado na sua igreja, e com o propósito de corrigir distorções e anunciar a verdade, Martinho Lutero escreveu 95 teses, que apôs à porta da Igreja de Todos os Santos, em Wittenberg, em 31.10.1517. Essas teses eram opiniões sobre as quais (pelo menos algumas delas) Lutero ainda não tinha convicções profundas. Por exemplo, não negavam as prerrogativas do papa, mas criticavam seu método autoritário. Não criticavam doutrinas estabelecidas, como o purgatório, mas davam ênfase ao caráter espiritual e subjetivo ou interior da religião cristã.

Estava assim lançada a semente da Reforma Protestante, que, graças à descoberta da imprensa e pela adoção do estilo panfletário de seus mentores, difundiu-se rapidamente pelo continente europeu. Lutero foi um prolífero escritor. Seus livros incluem comentários da Bíblia, obras polêmicas e devocionais práticas. Sua mais notável contribuição, nentretanto, foi a traduçào da bíblia para o alemão, que, além de tornar a leitura das Sagradas Escrituras acessível ao povo, deu unidade à própria língua alemã e exerceu profunda influência sobre sua literatura.

Todo o pensamento teológico de Lutero parte do pressuposto teocêntrico e do princípio da autoridade única das Sagradas Escrituras. Seu pensamento antropológico, em particular, reflete a doutrina agostiniana.

O homem, imagem de Deus. Lutero retorna às raízes da antropologia da fé bíblica e rejeita o dualismo medieval, que separa a alma do corpo. Para ele, é no homem como um todo – físico e espiritual – que reside a imagem de Deus.

Em suas preleções sobre o livro de Gênesis, comentando o versículo 26 do primeiro capítulo, Lutero diz que a expressão bíblica: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme nossa semelhança”, significa, em primeiro lugar, a diferença fundamental que existe entre o homem e os outros animais. Apesar dos pontos em comum com os outros animais, como a necessidade de se alimentar, dormir, etc, o autor sagrado indica que o homem foi criado segundo um plano especial e uma providência especial de Deus. A expressão bíblica indica que o homem é uma criatura muito superior ao resto dos seres vivos, especialmente quando considerado em seu estado antes da “Queda”.

Segundo Lutero Adão, em seu estado original, precisava alimentar-se e podia procriar. Mas, num dado momento, depois de completado o numero dos santos, essas atividades físicas terminariam, e ele, juntamente com seus descendentes, seriam transladados para a vida eterna. As atividades da vida física, como comer, beber e procriar, teriam sido exercidas para agradar a Deus e seriam isentas da concupiscência que nelas existem existe, depois do pecado.

O “façamos” do texto de Gênesis, segundo Lutero, indica o caráter trinitário da criação do homem. Na divindade e na Essência Criativa há uma plenitude eterna e inseparável. Mas, o que significa a imagem de Deus na qual o homem foi criado?

Lutero apresenta em resposta a essa pergunta, em primeiro lugar, o ensino de Agostinho, que usa a classificação aristotélica, segundo a qual a imagem de Deus no homem representa as faculdades da alma – memória, intelecto e vontade.

Outros, diz Lutero acreditam que a semelhança quer dizer os dons da graça. Assim como a semelhança é uma certa perfeição da imagem, assim também a natureza humana é aperfeiçoada pela graça. Nisso, portanto, consiste a semelhança de Deus no Homem: a memória provida de esperança, o intelecto. De fé, e a vontade, de amor. Neste sentido, dizem alguns doutores da igreja, o homem foi criado à imagem de Deus; isto é, ele tem intelecto, memória e vontade. De igual modo, o homem é criado à semelhança de Deus, isto é, o intelecto é iluminado pela fé, a memória torna-se confiante através da esperança e da perserverança, e a vontade é adornada pelo amor. Alguns desses autores fazem, também, a divisão da seguinte maneira: a memória é a imagem de sua justiça. Agostinho e seus seguidores, portanto, apresentam essas diferentes trindades no homem como forma de explicação da imagem de Deus nele.

Lutero faz restrições a essas especulações. Advoga que a perda dessa imagem, pelo pecado, torna sua compreensão impossível. Nós temos, de fato, memória, intelecto e vontade, mas se encontram comprometidos por causa do pecado. Se são essas faculdades da alma que constituem a imagem de Deus no homem, temos de admitir que Satanás também foi criado à imagem de Deus. Visto que ele tem esses dons e até mesmo em grau mais elevado. A posição de Lutero sobre o assunto é expressa nas seguintes palavras:

“Portanto, a imagem de Deus, segundo a qual Adão foi criado, é algo muito mais excelente, visto que obviamente nenhuma lepra do pecado havia aderido à sua razão ou à sua vontade. Tanto as suas sensações internas quanto as externas eram da mais pura qualidade. Seu intelecto era o mais lúcido, sua memória era a melhor e sua vontade era a mais reta – tudo na mais bela tranquilidade -, sem qualquer temor da morte e sem qualquer ansiedade. A essas qualidades interiores eram acrescentadas as mais belas qualidades do corpo e de todos os seus membros, qualidades nas quais excedia a todas as outras criaturas. Estou convencido de que antes de pecar os olhos de Adão eram tão aguçados e claros que podiam superar os da águia ou os do lince. Ele era mais forte do que os leões e os ursos, cuja força é realmente grande, e ele os dominava como se fossem objetos de brinquedo. Tanto o sabor com a qualidade dos frutos que comia eram superiores aos que têm agora” (Lectures on Genesis, cap. 1 a 5, p.62).

Outra demonstração da antropologia holística de Lutero é sua rejeição do mero conceito de imortalidade da alma, é uma idéia que o cristianismo herdou do helenismo, em favor de uma ressurreição do corpo, que dará unidade ao homem e que representa o ponto de vista do Antigo Testamento.

Outro ponto interessante do pensamento antropológico de Lutero é o que se refere ao pecado original. De acordo com a doutrina agostiniana, Lutero acredita que o pecado de Adão foi transmitido a seus descendentes. O texto básico, em que apóia a doutrina do pecado original, é o de Paulo aos Romanos 5.12: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram”

Lutero diz que o pecado original não é apenas a falta de determinada qualidade da vontade, como queriam alguns teólogos escolásticos apoiados em Aristóteles, e não apenas a falta de luz no intelecto ou de poder da memória, mas ele é a falta total de justiça e de poder de todas as faculdades do corpo e da alma e da totalidade do homem interior e exterior. E acrescenta: “Em cima de tudo isso, o pecado original é a inclinação para o mal, como está escrito no Salmo 14.3: “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos”; e em Gênesis 8.21: “... porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice...”(lectures on Romans, p. 2999).

E, comentando a última parte do versículo – “porquanto todos pecaram” – Lutero cita um texto d Agostinho, em que diz: “É certamente claro e óbvio que pecados pessoais, em que somente aqueles que o cometeram estão envolvidos, são uma coisa, e que este pecado do qual todos participam à medida que estavam neste homem (Adão) é bastante diferente” (De peccatorum meritis remissione, 1.10,11). E acrescenta:

Desta afirmação de Agostinho se conclui que pecado original é o primeiro pecado, isto é, a transgressão de Adão. Pois ele interpreta a expressão “todos pecaram” com referência a algo realizado e não e não apenas com respeito à transmissão da culpa. Agostinho continua: “Mas se a referência á àquele homem e não ao pecado, e que todos pecaram neste homem, o que poderia ser mais claro do que esta expressão”. Mas a primeira interpretação é melhor em vista do que se segue, pois mais adiante o apóstolo diz: “Porque assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores”(v.19), e isto é o mesmo que dizer que todos pecaram. Assim, em Isaías 43.26, 27” (...) apresenta as tuas razões, para que te possas justificar! Teu primeiro pai pecou (...)” o que significa dizer: não podes ser justificado porque és filho de Adão, que primeiro pecou. Portanto, és também pecador, porque és filho de um pecador; e um pecador não pode gerar algo senão a um pecador igual a ele (Lecture on Romanos, p.302).

E, suas Preleções sobre Gênesis, Lutero define claramente sua posição sobre o pecado original, ao declarar:

O pecado significa, de fato, que a natureza humana caiu completamente; que o intelecto se obscureceu de tal forma que não mais conhece a Deus e a sua vontade e não mais percebe as obras de Deus; além disto, significa que a vontade é extraordinariamente depravada, de tal forma que não confiamos na misericórdia de Deus e não tememos mas somos indiferentes à Palavra e à vontade de Deus, e seguimos os desejos e impulsos da carne; de tal maneira que nossa consciência não é mais tranquila, quando pensa sobre o juízo de Deus, desespera e adota defesas e remédios ilícitos (...) Assim como acontece com correlativos, o pecado original mostra o que é a justiça e vice-versa; o pecado original é a perda da justiça original, ou a privação dela, exatamente como a cegueira é a privação da luz (p.19).

Para Lutero, a Queda corrompeu a razão humana. Daí seu combate a Erasmo, que advogava que a razão humana tem o poder de compreender Deus, sem o auxílio de uma Revelação. Em seu ensaio Servidão da vontade, expõe seu ponto de vista sobre o assunto e combate as teses humanistas de Erasmo. Nesse mesmo ensaio, discute o problema do livre-arbítrio, por ele negado, como sugere o próprio título da obra em latim: : De servo arbítrio (1525). Para Lutero, nem mesmo Adão, antes de pecar, possuía o livre arbítrio. Somente Deus é livre. Eis um texto sobre o assunto “Segue-se, portanto, que ‘livre arbítrio’ é um termo aplicável exclusivamente à Majestade Divina... Se atribuíssemos o livre arbítrio ao homem estaríamos lhe atribuindo divindade, o que seria uma blasfêmia inominável” (Bondage of will, p. 105).

Segundo o ensino de Martinho Lutero, o homem, depois da Queda, tornou-se servo de Satanás. “Numa palavra, se estamos sob o domínio do deus deste mundo, estranhos à obra do Espírito santo, somos levados em cativeiro por ele e por sua vontade (...) de tal forma que não podemos querer nada além da vontade dele” (Bondage of will, p. 103). E, no mesmo texto, adota o pensamento de Agostinho e diz que a vontade do homem é como um animal entre dois cavaleiros: “Se Deus a conduz, ela irá para onde Deus deseja...Se Satanás a conduz, ela irá para onde Satanás deseja. A vontade do homem não escolhe o cavaleiro que a conduz, mas os cavaleiros batalham entre si para decidir quem a controla”.

Lutero ensinou também a doutrina da predestinação. Para ele, a eleição ou a predestinação do homem para a vida eterna não pode ser entendida pela razão humana; ela é simplesmente revelada e deve ser aceita como tal. Eis o que afirma um texto de Servidão da vontade:

Quanto ao motivo de alguns serem tocados pela Lei e outros não, de tal forma que uns aceitam e outros escarnecem a graça oferecida, é outra questão que Ezequiel não discute aqui. Ele fala da oferta anunciada da misericórdia de deus e não de augusta vontade oculta que, de acordo com seu próprio conselho, ordena tais pessoas como ele quer a receber e compartilhar a misericórdia pregada e oferecida. Essa vontade não deve ser questionada, mas reverentemente adorada como o mais terrível segredo da Majestade Divina(p.169).

Finalmente, o conceito luterano do homem, como sendo simultaneamente santo e pecador, revela o caráter dialético e paradoxal de sua antropologia. O homem, uma vez convertido a Cristo, descobre sua verdadeira natureza: Ele é, por natureza, totalmente pecador, mas em Cristo é completamente justo. Ele não é parcialmente uma coisa ou outra. Perante a Lei, o homem é sempre o pecador condenado, mas, em resposta ao Evangelho, totalmente justificado. Assim, na antropologia luterana, a dialética Lei-evangelho corresponde à dialética pecador-santo. Foi essa tensão que Lutero encontrou nas Sagradas Escrituras e confirmou em sua experiência pessoal, aceitando-a sem tentar explicá-la.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

EVENTO DA ASSEMBLÉIA DE DEUS - CADEESO - PE

DEIXADOS PARA TRÁS

cadeeso — 12-11-2009 GTM 1 @ 13:40

SEMINÁRIO DE ESCATOLOGIA

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DURANTE TRÊS DOMINGOS, ESTAREMOS PROMOVENDO UM ESTUDO BÍBLICO SOBRE ESCATOLOGIA NA ASSEMBLEIA DE DEUS CADEESO-PE.

NA OPORTUNIDADE SERÁ EXIBIDO O FILME "DEIXADO PARA TRÁS"

O EVENTO, ATENDE AO CURSO BÁSICO DE TEOLOGIA PROMOVIDO POR NOSSA IGREJA, E TEM POR OBJETIVO SATISFAZER AOS ALUNOS ACERCA DESSA MATÉRIA.

QUEM ESTIVER INTERESSADO EM PARTICIPAR, SEGUE INFORMAÇÕES

PALESTRANTE: Pr. Robson Aguiar

ASSEMBLEIA DE DEUS - CADEESO - PE
LOCAL: RUA 68, Nº 06, CAETÉS III, ABREU E LIMA - PE
EM FRENTE AO TERMINAL DO ÔNIBUS
DIAS: 15, 22 E 29
HORÁRIO: 14h00
ENTRADA: FRANCA
PUBLICO ALVO: TODOS

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

LUTERO E DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO - Parte 4


A DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO

De acordo com Lutero, há duas espécies de justiça, a externa e a interna. Aquela consiste de ações externas e é adquirida por meio de conduta justa. Ela também pode ser chamada justiça civil, pois trata do homem como membro da sociedade, ou de sua conduta em relação aos outros homens. Sua vida externa é declarada justa ou injusta.

A justiça interna, por sua vez, consiste de pureza e perfeição do coração. Como tal, não pode ser adquirida por meio de ações externas – da mesma forma que o homem não pode fazer-se a si mesmo Deus. Pois essa justiça vem de Deus apenas como dádiva, pela fé em Jesus Cristo. Esta justiça não é julgada diante dos homens mas perante Deus. Visto ser o homem pecador, não pode conseguir esta justiça por si mesmo. Ela contradiz a razão e ultrapassa tudo que pode conseguir esta justiça por si mesmo. Ela contradiz a razão e ultrapassa tudo que pode ser compreendido ou realizado por esforço humano. Esta justiça é adquirida pelo sofrimento e morte de Cristo, e é atribuída ao homem pela fé, independemente de qualquer mérito ou dignidade humanas. Deus declara o pecador justo por causa de Cristo. Essa justificação ocorre quando o homem se humilha perante Deus, reconhece que é pecador e clama por misericórdia e graça de Deus. Tal homem confessa que está cheio de pecado, mentiras, vaidade, incompetência e perdição, enquanto que Deus é tudo o que é bom. Nesta fé, e com tais orações, o coração do homem torna-se um com a justiça e virtude de Deus. Cristo torna-se sua justiça, sua santificação, seu livramento. Esta é a justiça interna (justita ab intra, ex fide, ex grata) apresentada de acordo com as palavras de Paulo: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela “fe, independemente das obras da lei.”(Rm 3.28).

Também notamos que, na doutrina da justificação pela fé da Reforma, o conceito de fé em si foi transformado. É grande a diferença entre ele e o conceito paralelo ensinado pela teologia da escolástica.

Na tradição do escolasticismo, falava-se de fé como algo concebível ao nível da razão, que podia ser adquirido mediante instrução e pregação (fides acquisita). Distinguia-se esta da fé infusa (fides infusa), que é dom da graça e implica em completa adesão a toda verdade revelada. Lutero rejeitou esta distinção: A fé que “vem pela pregação” coincide com a que justifica (de acordo com rm 3.28); é inteira e totalmente dom de Deus, “fé verdadeiramente infusa” ( fides vere infusa). A mente do homem não pode concebê-la, ela significa não apenas adesão intelectual às verdades da fé mas verdadeira comunhão com Deus, em que o homem coloca toda sua confiança em Deus e o encara como a fonte de todo o bem .

A fé justificante, em outras palavras, não é apenas conhecimento histórico do conteúdo do evangelho; é a aceitação dos méritos de Cristo. A fé, portanto, é confiança na misericórdia de Deus por causa de Cristo. Nesta conexão, Lutero cunhou a expressão fides aprehensiva Chrusti. O fator decisivo é que o evangelho da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte é recebido como verdade salvadora e vivificante. “A fé adquirida bem como a fé infusa dos sofistas diz de Cristo:’ Creio no Filho de Deus, que sofreu e ressuscitou’, e ai termina. Mas a verdadeira fé diz: ‘Certamente creio no Filho de Deus que sofreu e ressuscitou; estou certo de que ele fez tudo isto por mim, por meus pecados...’Este ‘por mim’ ou ‘por nós’ - quando é abraçado com fé – é a marca da fé verdadeira; esta é diferente de todos os outros tipos de fé, que apenas ouvem falar de coisas que aconteceram. Tal como Lutero a entendia, a fé não é apenas em conjunto de conhecimentos; é um poder vivo: “Que torna Cristo ativo em nós, opondo-se à morte, ao pecado e à lei.”

O conceito sola fide luterano igualmente deve ser entendido à luz do que foi dito. Também aqui a oposição de Lutero à escolástica se faz presente. Em anos anteriores os teólogos tinham falado, com base em gl 5.6, que a fé não era por si só suficiente para a justificação. A fé só poderia agradar a Deus caso estivesse associada a ações de amor.

Lutero demonstrou que a passagem paulina citada acima não se refere à justificação mas à vida cristã como um todo, que claramente se caracteriza pela fé ativa em amor. A justificação em si, por outro lado, é tão-somente obra da fé. Ocorre não com base no mérito humano, mas apenas por causa da justiça de Cristo, que nos foi atribuída. E a fé, como já dissesemos, é a aceitação das obras substitutivas de Cristo como tendo sido realizadas por nossa causa. A fé une o homem a Cristo, de modo que “Cristo vive em seu coração pela fé”. A fé, portanto, não é função “inerte” da alma, que deve ser aperfeiçoada pelo amor. É em si ativa, um poder vivificador, que incessantemente só pode fazer o bem.

Em sua descrição da fé, Lutero citava o exemplo de Abraão apresentado em Rm 4: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça.” Em conexão com isso, é costume falar-se em justiça imputativa como característica da teologia da Reforma. A justiça à qual aqui se faz referência não é qualidade inerente ao homem. O homem é declarado justo pelo próprio decreto de Deus. E isso acontece não com base em qualquer qualidade ou mérito do próprio homem, mas por causa de Cristo (propter pode ser justificado. E com isso voltamos ao ponto de partida, a justiça em questão só pode chegar ao homem como dádiva, como aliena justitia, isto é, não é nossa própria justiça mas a de Cristo, que nos é imputada pela fé.

Mas, este assim chamado conceito de imputação não deve ser interpretado como se referindo apenas a uma forma externa de julgamento. Pois foi precisamente neste contexto (como vimos) que Lutero falou de própria Palavra viva e criadora de Deus, que providencia o novo nascimento e transforma o homem por completo. Portanto, não há contradição (como alguns querem e a idéia da fé como poder vivo, que age. Pois o Espírito Santo é dado com a fé, e opera aquilo que é bom, e mediante o amor cumpre a lei.

A doutrina de Lutero referente a fé e obras tem suscitado muitos mal-entendidos. Por exemplo, ouve-se dizer que o conceito sola fide luterano significa que as boas obras perderam seu significado correto. Um relance ao pensamento de Lutero sobre o assunto revelaria, no entanto, que tais conclusões não estão de acordo com seus princípios.

A fé e o amor relacionam-se um com o outro como lei e evangelho, ou como as naturezas divina e humana em Cristo. Podem certamente ser distinguidas uma da outra, mas não podem ser separadas. A justiça da fé diz respeito ao homem em sua relação com Deus (coram Deo). A justiça das boas obras ou amor, diz respeito, por sua vez, ao homem em sua relação com seu (coram hominibus). Estas duas não devem ser confundidas a ponto de procurar o homem justificar-se à vista de Deus devido a suas obras, nem de tal maneira que tentará ocultar o pecado com a graça. Ambos seriam sinais de fé falsa. Disto decorre que fé e obras podem ser separadas enfaticamente, mesmo até podem ser designadas como opostos incompatíveis; mas ao mesmo tempo também é verdade que estão intimamente relacionadas.

Com respeito à justificação em si, as boas obras devem ser tão claramente distinguidas da fé como possível. Pois esta só diz respeito à fé. Como Lutero o expressou, não se deve permitir que a lei force seu ingresso na consciência. O homem que foi esmagado pela lei, e reconhece ser pecador, pode ser soerguido tão-somente pela fé. Deve contemplar a cruz de Cristo, e não a lei ou suas próprias obras, como se elas pudessem fazer satisfação por seus erros. Neste ponto, portanto, a fé e as obras se excluem mutuamente.

Mas quando se observa a vida concreta do cristão na sua totalidade, pode-se ver que fé e obras, pois constantemente faz o bem. Como resultado, podemos falar das obras, pois constantemente faz bem. Como resultado, podemos falar das obras de maneira tal que a fé seja pressuposta por elas e incluída nelas. Quando a Bíblia por exemplo, se refere às obras da lei, a exigência básica é a fé. Pois sem fé ninguém pode cumprir a lei ou fazer o bem. Em vista disso é que a exigência de boas obras pressupõe fé.

Semelhantemente, pode-se falar da fé de tal maneira que as boas obras sejam incluídas no próprio conceito de fé. A fé é assim considerada em seu sentido concreto, como fé encarnada nas obras de amor. Mas isto não significa que o amor enforma a fé, como os escolásticos diziam; pelo contrário, é a fé que enforma o amor. Isto quer dizer que apenas a fé torna boas as nossas ações. Usando outra expressão, a fé é a natureza divina das boas obras. Mas quando outra expressão, a fé é a natureza como um todo, fé e amor pertencem juntos e não podem ser concebidos separadamente; pois a fé toma forma em amor, e o amor torna-se o que é através da fé.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

LUTERO E A RELAÇÃO LEI E EVANGELHO - Parte 3




De acordo com uma das mais conhecidas expressões de Lutero, a divisão adequada de lei e evangelho é a arte mais elevada do cristão. Pode-se, com bom fundamento, fazer referência à dialética que Lutero tinha ai em mente como sendo fundamental para a sua teologia.

É possível obter-se a impressão, das muitas declarações significativas feitas, que lei e evangelho são duas categorias distintas e que na vida do cristão a ordem ou categoria da lei deve ser substituída pela ordem do evangelho. Lutero, entretanto, opunha-se tenazmente a essa interpretação (como ele fez ver claramente em seu conflito com os antinomistas, por exemplo). Pois assim como a lei nunca alcança seu cumprimento sem o evangelho, assim também o evangelho deve ser pregado juntamente com a lei; a lei serve de contexto. Sem a lei, perder-se-ia o sentido do evangelho. Como se poderia proclamar o perdão dos pecados sem a lei, que revela o pecado e acusa a consciência? Pois a medida em que a lei desmascara o pecado e condena o homem, também o impele a buscar a ajuda de Cristo (Rm 3.20; Gl 3.19,24). Assim acontece que lei e evangelho se encontram unidos desta maneira; condicionam-se mutuamente. Apesar disso é necessário (como já dito) claramente distinguir um do outro.

A lei nos diz o que devemos fazer, por causa do temor da punição. O evangelho, por seu turno, promete e proporciona o perdão dos pecados. Assim como é preciso diferenciar entre a justiça que é aceitável perante os homens e a que é aceitável perante Deus, assim também se deve distinguir entre a pregação da lei e a do evangelho. Uma das tarefas da lei é a de levar os homens a agir, a fazer o bem e evitar o mal. Deste modo inclui toda a ordem e atividade públicas nos diferentes momentos da vida. Lutero denominou este o uso civil da lei (usus legis civilis). Mas quando se trata da relação do homem para com Deus – sua justiça num sentido mais elevado – a tarefa da lei é completamente diversa. A lei não pode produzir uma boa obra sequer e o homem é por ela encaminhado à palavra do evangelho, que lhe oferece o perdão dos pecados por causa de Cristo. Neste contexto, a função da lei é simplesmente a de revelar o pecado e tornar real a ameaça da ira – a ira sob a qual o homem se encontra por causa de sua natureza pecaminosa. Lutero denominou isto o uso teológico ou espiritual da lei (usus theologicus seu spiritualis).

Lei e evangelho caracterizam duas espécies de pregação, que agem simultaneamente: a lei acusa e julga, enquanto o evangelho suscita a fé no coração e assim soergue o homem e o recria para que possa principiar a amar a Deus e a seu próximo – isto é, para que possa viver dentro do estado de espírito que o mandamento do amor exige.

Foi a obediência à lei e evangelho que produziu a forma gradualmente que substituiu o sistema institucional de penitência desenvolvido na Idade Média, cujo abuso Lutero atacou já nas Noventa e Cinco Teses de 1517. Alguns dos principais aspectos de sua crítica à doutrina romana de penitência se tornarão evidentes no que segue.

O arrependimento no sentido neotestamentário (metánoia) não é simplesmente uma ação penitencial temporário, assim como no sistema católico romano; é, antes, uma conversão que dura a vida inteira, sendo acompanhados pela morte do velho homem e pela participação na satisfação substitutiva de Cristo. Esta descoberta fundamental, já encontrada nas Noventa e Cinco Teses, gradualmente trouxe consigo uma transformação radical de toda a doutrina da penitência.

A espécie correta de contrição não é a que se ocupa apenas com ofensas isoladas, mas se encontra, em lugar disso, no coração quebrantado pela lei, quando revela que todos os homens se encontram sob a maldição do pecado. Como resultado, a contrição não é atividade meritória, mas a aceitação passiva da acusação da lei, que pressupõe fé no juízo que a palavra de Deus pronuncia sobre os homens pecadores.

Como consequência disso, a confissão dos pecados é algo completamente distinto da recitação, no confessionário, de todas as faltas que se cometeu, o que é exigência impossível de ser cumprida. Mas, além disso, o pecado consiste de ofensas isoladas; é a corrupção de toda a natureza humana, que só se reconhece quando a palavra de Deus é proclamada. Ao mesmo tempo, no entanto, Lutero continuou a ressaltar a grande utilidade da confissão privada. Mas recusou-se a crer que dar absolvição fosse privilégio sacerdotal. Considerava-o serviço fraternal que cada cristão tem o direito de prestar no esforço de fortalecer e confortar a consciência do penitente.

O perdão dos pecados não depende do mérito da contrição, e também não se deve fazê-lo depender da satisfação; é concedido ao fiel exclusivamente por causa da misericórdia de Cristo. A verdadeira “satisfação” encontra-se no sofrimento e na morte de Cristo, enquanto a exigência de fazer satisfação é contrária ao evangelho, como também o é o sistema de indulgências.

Nesta nova interpretação, o arrependimento não pode mais ser designado ação meritória. É, antes, o fruto da pregação de lei e evangelho. O juízo da ira realiza sua tarefa através da lei, acusando a consciência e mostrando ao homem que tudo nele é pecaminoso. A palavra do perdão é proclamada pelo evangelho, que desperta a fé na misericórdia e graça de Deus e transforma o homem de tal maneira que recebe nova mentalidade e o faz voltar seus olhos de si mesmo ao que Cristo é e faz. Entendido desta maneira, o arrependimento abrange a vida toda do cristão e descreve o que acontece quando a lei e o evangelho exercem sua influência e é produzida a justificação pela fé.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

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A TEOLOGIA DE LUTERO - PARTE 2


PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA TEOLOGIA DE LUTERO

a) Hermeneutica – A teologia de Lutero é a teologia da palavra. “E assim, á fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo”(Rm 10.17). Estas palavras paulinas tiveram significado fundamental para a Reforma Protestante. A Palavra divina, que cria a fé, destaca-se ao mesmo tempo o fundamento da teologia. A autoridade da escritura certamente fora enfatizada antes disso – e notadamente na tradição ocamista – mas quando Lutero se referia à Escritura como a Palavra divina, trazida ao homem através dos apóstolos e profetas, falava com nova convicção referente à posição fundamental e inalienável da palavra. O que havia de novo na atitude de Lutero face à Escritura era especialmente sua percepção mais profunda com respeito ao seu conteúdo. Além disso, Lutero reconhecia que a autoridade da Palavra era válida mesmo quando a tradição divergia dela; que sua autoridade mantinha cativa a consciência. Por último, os princípios de interpretação também foram completamente transformados na exposição bíblica de Lutero.

Cristo é o centro da Bíblia. “A Escritura deve ser entendida a favor de Cristo, não contra ele; sim, se não se refere a ele não é verdadeira Escritura.” “Tire-se Cristo da Bíblia e que mais se encontrará nela?” Para se compreender a Palavra o essencial é aceitar as promessas do evangelho pela fé. Faltando esta fé, a Palavra divina não pode ser entendida corretamente. Com isso, Lutero afastou-se da interpretação legalista da Bíblia, que encontra na Escritura uma coleção de diferentes doutrinas e ordenanças, e do conceito “entusiasta”, intimamente relacionado com a outra, e cujos adeptos reivindicam possuir a “Palavra interna” como norma da interpretação da Bíblia. Por entender claramente o fato que a mensagem do evangelho é a faceta central do conteúdo da Escritura, Lutero possuía certa liberdade com respeito à análise dos pormenores da Bílbia, liberdade que não significa nada além do fato que o conteúdo central (o contexto total) da Bíblia é o fator determinante na interpretação dos pormenores. Isto de maneira alguma significa desafio à autoridade canônica da Escritura. A posição de Lutero foi algumas vezes interpretada para significar exatamente isto, mas tais conclusões são incorretas. Entender o sentido mais profundo pressupõe especificamente o que mencionamos – a obediência da fé á Palavra externa. A fé em si, portanto, baseia-se na validez incondicional da Palavra. Sua autoridade também se justifica por isto, que nós homens, por causa de nossa fraqueza, devemos estar ligados à Escritura como norma externa, obrigatória. “Para que a igreja não seja destruída, é necessário que mantenhamos firmemente os diferentes escritos e ordens dos apóstolos.” De acordo com outras afirmações de Lutero, os apóstolos são nossos mestre infalíveis em virtude de incumbência divina especial.

Em nossa relação com a Bíblia, portanto, tanto liberdade como sujeição permanecem de pé. Do ponto de vista da fé como tal, estamos livres com respeito a pormenores literais. A fé tem importância primordial na interpretação da Bílbia; isto significa que a Escritura deve ser entendida no espírito de Cristo e não legalisticamente. Mas do ponto de vista das condições sob as quais a fé chega a existir, estamos subordinados à Escritura como autoridade externa.

Muitas vezes se tem assinalado a assim chamada crítica de Lutero ao cânone (certas afirmações sobre a Epístola de Tiago, entre outras) como exemplo de sua liberdade face à autoridade da Escritura. Mas isto conduz a equívocos. Realmente Lutero não considerava o cânone do Novo Testamento como fixado de modo absoluto. Em sua opinião, quatro dos últimos livros do Novo Testamento ( Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse) eram apócrifos, ou escritos cuja autenticidade apostólica eram, acima de tudo, decisivos na determinação da canonicidade. Assim, por exemplo, o que a Epístola de Tiago diz sobre fé e obras é interpretado como indicação que a epístola não é nem apostólica e nem canônica. (Na tradição protestante, foi só na época de Gerhard que também os assim chamados antilegômena entre os escritos neotestamentários começaram a ser reconhecidos como verdadeiramente canônicos.)

Apesar de certas semelhanças, há grande contraste entre a interpretação da Bíblia feita por Lutero e a moderna interpretação histórica, mas este contraste tem sido frequentemente ignorado. É verdade, sem dúvida, que Lutero atribuiu a maior importância ao que ele denominou o sentido literal ou histórico da escritura. Mas com isso ele não entendia a interpretação histórica no moderno sentido do termo; foi antes uma percepção derivada do contexto da fé. Lutero acreditava, por exemplo, que o Antigo Testamento é testemunha direta de Cristo, e não simplesmente que contém algumas prefecias a respeito dele. A concepção da “História das religiões” sobre a interpretação da Bíblia era desconhecida naquela época.

A idéia que Lutero fazia do Antigo Testamento correspondia aos pensamentos que desenvolveu com respeito à relação entre lei e evangelho. A lei mosaica, no sentido jurídico, foi abolida por Cristo. Fora para os judeus o que as leis saxônicas eram para os alemães e, portanto, válida apenas para certo povo num tempo determinado. A lei, contudo, recebeu cumprimento mais elevado que a obediência externa aos mandamentos. Aponta ao evangelho e atinge seu cumprimento apenas através da proclamação da justiça pela fé em Cristo. A lei, portanto, é preservada, e como mandamentos de Deus, aos quais todos os homens estão sujeitos, é válida mesmo na era do Novo Testamento. Ao mesmo tempo, porém, podemos também ver o evangelho no Antigo Testamento. Cristo também está nele, não apenas como o futuro Messias, predito na lei e nos profetas, mas também como aquele que fala diretamente nos Salmos e através dos profetas.

A interpretação bíblica tradicional da Idade Média mantinha que a Escritura tem sentido quádruplo. Podia ser exposta literalmente, tropologicamente (isto é, com respeito ao cristão individual), anagogicamente (isto é, com respeito à eternidade) e também alegoricamente, o que significava que se podia, por exemplo, fazer a Palavra se pronunciar sobre realidade gerais no mundo da fé ou da igreja.

Lutero rejeitou tal estrutura. Em sua opinião, a escritura tem apenas um sentido próprio, o gramatical ou histórico. Naturalmente, também reconhecia a interpretação figurativa que se encontra na própria Bíblia, como por exemplo nos paralelos estabelecidos entre Cristo e certos personagens do Antigo Testamento (tipologia). Lutero também falou (especialmente em seus primeiros sermões) de um sensus spiritualis ou mysticus, que aponta diretamente à alegoria. Mas este ponto de vista recebeu posição subordinada. Não era fidedigno, e aparecia nos sermões de Lutero apenas como adorno tradicional da exposição da Escritura. Em anos posteriores, Lutero abandonou mais e mais essa espécie de interpretação da Bíblia.

No conceito de Escritura de Lutero há a idéia que a Bíblia pode ser entendida por si mesma, agindo cada pessoa como seu próprio intérprete. As interpretações da tradição ou do clero não são necessárias para a correta compreensão da Bíblia (como os tólogos católicos romanos diziam). A Palavra possui em si a “clareza externa” que ela transmite e administra através do ministério (in ministerio verbi). É por esta razão também que a Escritura - sem o acréscimo de mandamentos humanos e opiniões doutrinárias – é o único fundamento da fé.

A “clareza externa” da Palavra deve se distinguida da assim chamada “clareza interna”, que é o cerne da compreensão do conteúdo da Escritura. Esta chega a existir apenas por meio do Espírito Santo, que ilumina e instrui o homem internamente. Lutero também ressaltava o significado da experiência para a correta compreensão da palavra de Deus. A educação na fé, juntamente com a experiência que é dada quando se aplica a fé quando se passa por tribulações de vários tipos, é necessária para uma genuína percepção da palavra (a escola do Espírito Santo).

É característica da teologia da Reforma que a Palavra seja colocada no centro das coisas, não apenas como fonte de percepção da realidade sobrenatural, mas também como Palavra eficaz, criadora e vivificante, pela qual Deus julga e soergue. A fé se relaciona com a própria palavra, não simplesmente como uma realidade metafísica existente por detrás da palavra, e nela encontra a salvação. Nisto podemos ver um contraste fundamental entre a teologia da Reforma e a teologia escolástica.